“Paisagem da Janela” foi mesma composta em Ouro Preto?

paisagem de uma janela em Ouro Preto
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Com as assinaturas de Fernando Brant e Lô Borges, a música “Paisagem da Janela”, lançada em 1972, resguarda alguns mistérios, que para muitos chega a ser obscura, como sobre a localização em que foi inscrita. Durante décadas foi contada a história de que ela foi composta em uma república estudantil, das tantas que existem em Ouro Preto. Entretanto, há outra perspectiva sobre o assunto.

A letra de “Paisagem da Janela” carrega consigo muitas peculiaridades, pois ao longo de seu desenvolvimento, a canção recebe detalhes, que caracterizam um local específico, “Da janela lateral, do quarto de dormir, eu vejo uma IGREJA, um sinal de glória, vejo um MURO BRANCO e um voo pássaro, vejo uma GRADE, um velho sinal”. Com essa primeira estrofe marcante, a canção que ganhou o público e a crítica brasileira e ficou mundialmente conhecida na voz de Beto Guedes, parece ter tudo para ter sito escrita na velha Ouro Preto. Inclusive, quem defende essa tese, sustenta que ela foi escrita por Fernando Brant na Rua das Mercês. Todavia, essa história foi contata na cidade, ultrapassou gerações, como se fosse motivo de orgulho para os ouro-pretanos.

É fato que Fernando Brant quem deu vida a letra da música e Lô Borges é o dono de sua melodia e arranjos musicais, o que se tem a investigar aqui é onde de fato nasceu a letra. Essa história já pode entrar para o livro de “causos mineiros”, de tanto suspense, não acha?

Caminhando mais um pouco pela canção, encontramos mais uma estrofe, “Mensageiro natural, de coisas naturais, quando eu falava dessas cores mórbidas, quando eu falava desses homens sórdidos, quando eu falava desse temporal, você não escutou”. Tem gente que jura de pé juntos que essa parte comprova o nascimento na música em Ouro Preto, principalmente pela parte que fala sobre cores mórbidas, que poderia facilmente fazer menção às cores dos patrimônios materiais da cidade tombada, já que são seculares, logo trazem o obscurantismo do barroco. “Só que não”, há todo um contexto imbuído nessa letra, precisamos compreendê-lo para prosseguir essa análise.

Como “Paisagem da Janela” foi escrita durante a ditadura militar, período marcante na história do Brasil em que muitos artistas não poderiam se expressar livremente através de suas obras, é muito provável que partes dessa letra recebam críticas políticas. Logo, essa estrofe pode ser compreendida tal qual. As cores mórbidas seriam sobre o momento de morte vivenciado pelos brasileiros. Os homens sórdidos seriam os torturadores da época E, o temporal, a chuva de tristezas sob a nação.

Sendo assim, vamos imergir mais um pouco na canção, a fim de descobrirmos se de fato ela foi inspirada pela montanhosa Ouro Preto. “Cavaleiro marginal, lavado em ribeirão, cavaleiro negro que viveu mistérios, cavaleiro e senhor de casa e árvore, sem querer descanso, nem dominical”. Essa parte é facilmente compreendida do ponto de vista também político. O autor pode estar usando metáforas para falar sobre a vida dos negros pós-alforria, o que aponta que sim, a letra pode ter sido escrita em Ouro Preto, pois na cidade há diversos elementos históricos que comprovam que de fato a escravidão existiu no Brasil, como senzalas, grilhões e afins. Evidenciando que as pessoas negras após serem alforriadas foram largadas ás margens da sociedade brasileira. Como também pode ser um personagem fictício escolhido por Brant simplesmente para tornar a letra mais poética.

E Brant continua narrando o tal lugar, “conheci as torres e os cemitérios, conheci os homens e os seus velórios, quando olhava da janela lateral, do quarto de dormir”. Aqui o mineiro retorna ao início da música, ele viu tudo isso da janela lateral do quarto de dormir. Cemitérios, torres, velórios, homens, “certeza que tá falando de Ouro Preto”, dizem alguns. Afinal, quem teve a oportunidade de conhecer a cidade que brigou a Inconfidência Mineira e o Pico do Itacolomy, saque que tendo uma visão panorâmica da cidade, ou até mesmo através de um simples cartão postal – se é que isso ainda existe – vê-se tudo isso.

Quanto ao refrão, deixamos para que os leitores interpretem, ele não interfere na questão apresentada. “Você não quer acreditar, mas isso é tão normal”.

Finalmente chegamos ao final de nossa viagem à “Paisagem da Janela”, ou “Da Janela Lateral”, como ficou popularmente conhecida.

Fernando Brant nasceu em Caldas, Mina Geral, em 1946, passou a infância em Diamantina, em seguida foi morar em Belo Horizonte, onde mais tarde se tornaria um dos integrantes do Clube da Esquina, um dos maiores movimentos musicais do país entre as décadas de 80 e 90. Ao lado de Beto Guedes, Milton Nascimento, Lô Borges, e Márcio Borges e Toninho Orta, o compositor fez uma bela história, contribuindo, e muito, na formação de um dos pilares da música popular brasileira, a música mineira.

A singularidade usada por Brant para compor rendeu mais de 200 composições, entre elas “Encontros e Despedidas”, “Maria, Maria”, “Nos Bailes da Vida”, entre outros hits. Além disso, o escritor escreveu para peças de teatro e musicais nacionais. Ele também escreveu colunas em jornais mineiros, nas quais defendia os direitos autorais dos artistas brasileiros.

Há quem diga que “Paisagem da Janela” foi escrita em Diamantina. Os mais “candongueiros” dizem que foi Tiradentes “quem” inspirou o sucesso.

Nem em Ouro Preto, nem em Mariana, Diamantina, muito menos em Tiradentes. “Paisagem da Janela”, foi inspirada na capital Mineira. Isso mesmo, ela foi escrita em Belo Horizonte, no bairro Funcionários para sermos mais exatos.

A música ícone, que despontara diretamente das Minas Gerais para o mundo, foi lançada no auge da ditadura militar. Alguns anos antes de falecer Brant revelou que a igreja mencionada na canção seria a igreja de Nossa Senhora de Lurdes, “Da janela poderia ver a igreja de Lourdes, mas hoje (2002) os prédios escondem tudo”, disse o artista para o jornalista Rodrigo James (A Folha). Posteriormente a história confirmada pelo irmão de Lô Borges, o também músico Marilton Borges, que acompanhou toda ascensão do grupo.

Quando Brant lançou a música ele tinha 26 anos, mas há rumores de que a canção tenha sido composta em 84, não há nenhuma fonte que confirme essa história, seria este um novo mistério a ser desvendado pelo portal Mais Minas?

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Crédito: Mais Minas


Ouro Preto

Ao longo dos anos “Paisagem da Janela” se tornou uma canção ouro-pretana. O autor descreveu tão bem a vista que tinha da janela, que ela poderia perfeitamente ser atribuída á diversas cidades mineiras, afinal, tudo isso é muito de Minas: municípios repletos de igrejas, torres, velórios, cavaleiros, etc. Sem dúvida, Ouro Preto está inserida neste contexto e todos nós bem sabemos que um bom mineiro, sempre dá umas voltas pela cidade e região, nem que seja para conhecer.

Cercada de montanhas e refletindo muita história, a Antiga Vila Rica é um dos destinos mais cobiçados do Brasil. Ouro Preto é um lugar que fundi diversos atrativos turísticos, entre eles, a arte barroca de Alejadinho e Mestre Ataíde, do século XVIII, as minas de ouro de Chico Rei, onde as pessoas escravizadas escavavam o outro a serem entregues aos colonizadores portugueses, e por falar em Chico Rei, vale ressaltar sobre o surgimento da tradição do Congado Mineiro.

A cidade também abriga a figura de Tiradentes exposta na Praça Tiradentes (centro histórico), evidenciando uma luta política travada em 1792, o romance de Marília e Dirceu, o Parque estadual do Itacolomy, o Pico do Itacolomy, a UFOP, é uma localidade que respira arte e história, ao mesmo tempo em que oferece as delícias da vasta gastronomia mineira.

Entre os becos e vielas de Ouro Preto ainda há muitas histórias, dessas que poucos conhecem. A riqueza nos detalhes da o tom charmoso á cidade, que junto com o clima frio, que traz a baixa cerração, deixa tudo mais especial.

Ouro Preto entrega um estilo de vida livre, que só quem visita o local entende. É como se as pessoas que chegam na cidade sentissem a liberdade tomando conta de seus corpos. Elas passam a caminhar pelo meio da rua, sem sentir medo. As crianças correm e brincam enquanto os adultos curtem um barsinho. Os jovens se entregam a boemia – que parece não ter fim nunca – enquanto conhecem mais sobre a história do seu país.

Ouro Preto e o Clube da Esquina

Ouro Preto é uma cidade em que ouvir o cd Clube das Esquina (1972) e a música Clube da Esquina n°2 é muito especial. Ainda que as músicas não tenham sido inspiradas na cidade, em suas totalidades, é possível identificar muito dela nas canções.

Ao mesmo tempo em que se “enxerga” Ouro Preto na canção “Paisagem Da Janela”, é possível “ver” também a urbana Belo Horizonte. Podemos citar os anjos da igreja Santo Francisco de Assis, para explicar o porquê da canção parecer pertencer a Ouro Preto, Diamantina, e tantas outras cidades em que esse mito foi criado. A primeira vista os anjos ali parecem estar alegres e estonteantes, não demora muito para que o semblante desses seres gregos mudar e eles ficarem assustadores, depois que ficamos dois minutos com o olhar presos neles, conseguimos ver eles debochando, sendo sarcásticos e depois voltam a serem angelicais novamente.

Da mesma forma pode acontecer com a música “Paisagem da Janela” que acreditamos piamente ter sido escrita em Ouro Preto, mas que não é. Tudo faz parte da nossa perspectiva ilusionista. Costumamos enxergar a vida do nosso ponto de vista.

Deixando a filosofia um pouco de lado. Além de desvendar o mistério e desmistificar esse mito, é claro que não poderia faltar a emblemática canção. Com vocês, “Paisagem da Janela”, composta por Fernando Brant e Lô Borges.

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