Tags

Posts com a tag ‘Entrevista

Grandes nomes da música brasileira: entrevista com Mayrton Bahia – Parte 3

Foto: mini studio, por tacoekkel, CC BY-SA 2.0

Estrombo: Você acha que com o barateamento dos equipamentos de gravação, novos canais de distribuição e tecnologias, é mais fácil viver de música hoje?

M.B.: Eu acho que é mais fácil no sentido de dar visibilidade a pessoas que jamais teriam essa possibilidade se não fossem essas tecnologias. Claro que é mais difícil por outro lado, porque também tem muita gente com acesso à tecnologia.

Estrombo: Então, existe uma competição por atenção?

M.B.: Existe porque todo mundo tá querendo atenção. Aqueles que têm o que dizer, e aqueles que não tem muito o que dizer. É nessa hora que eu acho que precisa do produtor… não só do produtor, mas também de um bom diretor midiático, digamos assim. Ele vai descobrir também qual é a melhor mídia para o que você tá fazendo, o melhor nicho.

Estrombo: Nesse sentido, você acredita que a cadeia produtiva da música está mais diversificada, com novas funções que precisam ser incorporadas?

M.B.: Eu acho que hoje tem muitas viabilidade para as pessoas que jamais iriam ter essa chance. Na época que eu trabalhava em gravadora, recebia milhares de fitas cassete, CDs demo e a gente sabia que não tinha espaço pra todo mundo. Hoje tem. Agora, por outro lado, os artistas e as pessoas que estão junto com eles precisam desenvolver uma nova competência para não cair na rede na mesmice generalizada. Você tem condição hoje de alcançar o mundo inteiro, mas tem que começar pelo seu nicho, achar a tua turma e o seu perfil. E descobrir qual é maneira melhor de você trabalhar aquela tecnologia. Acho que o marketing e essa “era da farsa” que eu digo deu uma falsa sensação de que todo mundo é artista, no sentido de nivelar todo mundo. Por um lado é bom, mas por outro causou uma certa urgência. Então, as pessoas fazem qualquer coisa pra aparecer. Botar a cabeça de fora parece que ficou mais importante do que dizer alguma coisa. Já era difícil há um tempo atrás, precisava de um prazo médio a longo pra você estabelecer a carreira de um artista para ele se desenvolver e poder viver disso pela vida toda. Hoje, com esse excesso de canais de mídia, isso fica mais complexo ainda. Acho que precisa também de outras pessoas para afinar com o produtor musical e com o artista pra que ele consiga ter uma identidade. O risco que a gente corre hoje é a perda de identidade total.

Estrombo: Existe esse perigo do acesso ficar mais importante do que o próprio produto?

M.B.: Exatamente. Hoje, você tem muito mais acesso ao conhecimento e à tecnologia do que antes. Mas quando você pega um loop da internet, um groove já pronto, maravilhoso, tem milhares de pessoas no mundo inteiro usando esse groove. Se você não der a sua visão, não jogar quem é você nesse groove… você pode usar, mas ele por si só não basta. Essa é a diferença, entendeu? Você tem que se apropriar daquilo ali. Não é copiar ou roubar uma coisa do outro. Se apropriar é você tornar seu, interagir com aquilo e transformar numa parte sua; modificar e usar como um recurso pra você dizer quem é você. Esse é o truque da música pop: não é você inventar uma coisa que ninguém nunca ouviu, mas a maneira como você vê aquilo, como você se apropriou daquilo e o uso que você tá fazendo. Essas construção é que eu acho importante. Uma construção onde você tá usando a sua matéria-prima. Então hoje esse é o desafio da internet. Tá tudo lá. Toda a tecnologia, todos os plugins, todos os recursos tecnológicos, todos os grooves, músicas com pedaços prontos, você pega, junta… É como a vovó que faz bolo. A receita tá lá, você faz e fica uma merda. Outra pessoa faz e fica uma merda. Então, a vovó faz e fica maravilhoso, porque aquilo ali tem toda uma vivência, a quantidade que ela coloca de açúcar, o jeito que ela roda a colher de pau três vezes para um lado, três vezes para o outro, sei lá… É isso que eu to falando. A música é assim. A música pop é isso.

Foto: mini studio, por tacoekkel, CC BY-SA 2.0

Grandes nomes da música brasileira: entrevista com Mayrton Bahia – Parte 2

Foto: Guitar Study 1, por fmerenda, CC BY-SA 2.0

Estrombo: Muitas bandas se auto produzem hoje. Qual a vantagem de ter um produtor fora da banda coordenando tudo?

M.B.: Às vezes não é vantagem. Tem bandas que estão tão afinadas com o que elas têm a dizer que pode ser até que o produtor atrapalhe. A vantagem é quando você encontra um produtor que condiz com o perfil que a banda quer trabalhar, com aquilo que a banda é. Se o produtor é experiente, ele sempre tem o que acrescentar naquilo que a banda quer fazer. Continua tendo muito campo pra produtor porque porque tem muita banda, tem muita gente fazendo música hoje. Se você é um produtor com experiência, vai economizar tempo dessas pessoas e vai poupá-los de uma série de tentativas e erros. Eles vão economizar dinheiro, tempo e os caras vão gastar mais energia naquilo que é mais eficaz.

Estrombo: Qual o melhor caminho para a banda escolher um produtor?

M.B.: Procura olhar o que o produtor já fez, vê se rola uma identificação com os trabalhos que ele realizou. Eu acho que a parte mais importante de uma produção é a pré-produção. Nessa etapa, banda e produtor se conhecem e muitas vezes o próprio produtor pode não querer trabalhar com aquela banda. Na pré-produção, você bota as pessoas pra ensaiar, testa e vê se alguma coisa que você observa tem repercussão na banda ou se há alguma coisa você acha que precisa mudar e se a banda tem a capacidade de fazer essa mudança. Por exemplo, tem produtor que às vezes quer mudar uma coisa na banda e chama outro músico – ignora a banda. Eu não trabalho assim. Ou eu trabalho com a banda como ela é e, dentro daquilo que ela é, acrescento e potencializo alguma coisa ou prefiro não fazer. Simplificando: seu som é sujo e você só conhece três acordes. O que você tá dizendo precisa de mais do que isso? O seu discurso, a maneira como você se apresenta no palco, como você se expressa, precisa de uma elaboração maior do que essa? Não precisa, tá condizente? Então vamos fazer. Agora é claro que, ao longo do tempo, essas pessoas vão evoluindo no sentido de pegar mais técnica no instrumento, de conseguir lidar com a mídia, que é uma outra escola. A gente não tem faculdade de artista, a pessoa aprende no tapa.

Estrombo: Nesse sentido, as gravadoras davam uma espécie de assessoria que hoje talvez não tenha mais?

M.B.: Total. Não tem mais. As gravadoras eram essa faculdade. E a gente convivia com os artistas o tempo todo. Eu ia no show, conversava. Existia uma construção de conhecimento fonográfico muito grande nessa sociedade que vivia dentro da gravadora. E a troca de informação era muito intensa. Por exemplo, na Odeon eu tinha três estúdios. Eu estava com o samba da Clara Nunes num estúdio, com 14 Bis no outro e com música popular no terceiro. Você podia ter, de repente, Nana Caymmi encontrando com Reginaldo Rossi, encontrando com Flávio Venturini. Legião encontrou com 14 Bis e fez uma música pra eles. A Nana encontrava com o pessoal do Clube da Esquina. Eu produzindo Elis Regina, tava o Lô Borges gravando no outro estúdio, fizemos uma música com o Lô Borges participando. Então era uma coisa muito intensa, muito viva.

Estrombo: É mais difícil vermos surgir hoje um grande astro da música brasileira?

M.B.: Eu acho mais difícil sim. Agora, não quero dizer que não vá acontecer. Acho que nós ainda estamos numa margem de transição muito grande. Ainda tá um pouco cedo pra gente poder concluir sobre isso. Antes, havia todo um incentivo. A gravadora deixava de pagar uma grana de ICM pra investir em produção nacional. Depois, quando começou a abertura política, a ditadura foi ficando mais branda, nós entramos na era do entretenimento. Então, as gravadoras falavam assim: “nós não somos uma empresa de cultura; nós somos uma empresa de entretenimento. Nosso negócio aqui não é fazer música cabeça. Já brigamos com censura, a música é pra entretenimento”. E começaram a investir pesado em música pra divertir, pra dançar, mais leves. Isso durou pouco e, logo em seguida, nos anos 90, a gente entrou na era do marketing. As gravadoras diziam: “nós não somos empresas de disco, nem de música. Nós somos empresas de marketing”. Não só as gravadoras, né? O marketing deu uma bombada em todas as áreas, o mundo ficou capitalista ao extremo, todo mundo correndo atrás do dinheiro… Não se preocupava. muito com a identidade do artista e com o que ele tinha pra dizer, mas como deve ser dito. E já é uma conclusão minha que, do meio dos anos 90 pra cá, início dos anos 2000, nós saímos da era do marketing e entramos na era da farsa. Acho que hoje a gente vive na era da farsa mesmo, descaradamente.

Estrombo: E como isso aparece na música?

M.B.: Por exemplo, quando assisto alguns programas musicais na televisão. Tem algumas coisas muito boas, mas a pessoas estão muito mais preocupadas com a sua performance, com a sua imagem, do que com o próprio conteúdo das músicas. Vejo músicas fantásticas que, ao invés de serem potencializadas, são destruídas. A música tá servindo apenas como um degrau pro artista. A pose tá ganhando muito mais relevância do que o conteúdo. É claro que ainda tem alguns artistas que cantam uma coisa porque têm necessidade de dizer aquilo. Pra mim, isso é a base pra gente formar aqueles grandes nomes que a gente vê aqui.

Estrombo: Mas a construção da performance sempre teve um peso importante em uma carreira.

M.B.: As pessoas estão jogando muito pra plateia e também jogavam há um tempo atrás. Só que havia o que se dizer e se expunham muito para isso. A Cássia Eller, por exemplo, era uma pessoa extremamente tímida. Ela não falava muito sobre ela, jogava o cabelo no rosto, mas quando subia no palco ela se expunha totalmente. Ela precisava do palco pra gritar esse tipo de coisa pra todo mundo. É isso que eu sinto falta hoje. Eu sinto falta dessa coragem das pessoas chegarem publicamente e mostrar aquilo que elas realmente são. Isso pra mim é a matéria-prima pra você ter esses grandes artistas. Então por isso que eu digo que tá cedo. Nós estamos ainda nesse deslumbramento de que tudo o que você mostra, é; tudo o que você apresenta, é. Acho que vai chegar um momento que as pessoas vão ficar com o saco cheio disso. Acho que vai chegar num momento em que as pessoas vão ter a necessidade de mostrar o que elas realmente são. Acho que a gente tá vivendo uma época em que isso tá muito complicado com a mídia. Eu sinto que muitos artistas dão mais prioridade à embalagem. Eles vão lá, fazem aquele mise en scène todo e você não sabe quem são elas. Elas não colocam pedaços delas no que elas tão cantando, na maneira que elas tão cantando. É isso que eu sinto falta.

Foto: Guitar Study 1, por fmerenda, CC BY-SA 2.0

Grandes nomes da música brasileira: entrevista com Mayrton Bahia – Parte 1

Foto: Vinyl Heaven, por realsmiley, CC BY 2.0

Em mais de 30 anos na indústria fonográfica, Mayrton Bahia ajudou a construir a história da nossa música. Começou como técnico de som na gravadora Odeon e, assumindo o cargo de produtor musical, trabalhou com 14 Bis, Elis Regina, Legião Urbana, Ivan Lins, Wagner Tiso e navegou por diferentes estilos e personalidades. Na mesma empresa, foi gerente de produção e cuidou de um casting que, no auge do Brock anos 80, tinha Plebe Rude, Paralamas do Sucesso e Blitz, entre muitos outros.

Nos anos 90, recebeu carta branca do presidente da Polygram ao ser contratado como diretor artístico da gravadora. E lá, diz que conheceu o Brasil com a música sertaneja, através da dupla Chitãozinho e Xororó. Como o boa parte do seu elenco era popular e vendia bastante, pôde fazer apostas arriscadas ao lançar no mercado a cantora Cássia Eller e os irmãos Sandy & Junior.

Ligado em tecnologia, antes da sair da Polygram percebeu os desafios que a indústria fonográfica enfrentaria quando a Phillips vendeu a gravadora e lançou o CD gravável no mercado. Em 1993, criou o selo Radical Records, pois queria lançar tudo aquilo que as gravadoras não abraçavam, como o Rap e o Punk Rock, mesmo tendo algum tempo depois aberto para o pop rock nacional.

Conversando com o Estrombo, o produtor, que em 1999 criou o curso de Produção Fonográficada Universidade Estácio de Sá, enfatiza a importância de descobrir a identidade do artista, a matéria-prima sobre a qual os novos profissionais devem trabalhar. Confira a primeira parte da entrevista a seguir.

Estrombo: Afinal, o que é produção musical?

Mayrton Bahia: Grosso modo, o produtor musical é como se fosse aquele diretor de cinema. É o cara que fica responsável por tudo que está ligado à produção do fonograma. Não a produção fisica, mas o conteúdo musical. Então, ele dirige o cantor no estúdio, participa da escolha do repertório… Ele dirige o técnico que tá gravando, o engenheiro de som… Essas funções eram realizadas pelos diretores artisticos, que, desde os anos 90, com as mudanças nas gravadoras, virou mais um cara ligado ao faturamento direto da empresa. Ele era o grande visionário da gravadora, aquele cara que via o artista, vislumbrava uma carreira e decidia o repertório junto com ele. Essas funções se deslocaram para o produtor musical.

Estrombo: Qual seria a diferença entre o produtor musical e o produtor executivo?

M.B.: Essas nomenclaturas que também causam muita confusão. Tem muitos discos que você pega e está assim: “produzido por”. Quando está “produzido por”, é porque esse cara fez a produção musical e a produção executiva. A produção musical, em princípio, está mais ligada à parte artística, musical em si. E a executiva é o pagamento dos músicos, o orçamento, o cronograma da gravação, aluguel de equipamento, aluguel de estúdio. Toda a gestão econômica seria a produção executiva.

Estrombo: E você assumia as duas funções?

M.B.: Na minha vida toda, eu só fiz um disco que tinha produtor executivo – e odiei. Odiei o cara tentando me regular ali, dizendo o que eu posso e o que eu não posso fazer. Eu faço tudo. Tem que ter um plano de gravação, um organograma. Aí você coloca as semanas que vai gravar, o que vai gravar, quanto custa, pega a aprovação da gravadora. E você trabalha diretamente ligado ao diretor artístico, pois é ele que te contrata. Quando eu comecei nos anos 70, as gravadoras tinham produtores musicais contratados, mas isso acabou. Hoje, tem o diretor artístico que é um cara que cuida do casting da gravadora. E esse diretor artístico é o que contrata os produtores musical e executivo. E hoje é freelancer, todo mundo é produtor musical independente.

Estrombo: Você diria que é essa é uma das principais mudanças na produção musical dos anos 70 e 80 pra hoje?

M.B.: Sem dúvida. Quando eu entrei, já tinha produtor musical freelancer – embora eu tenha trabalhado muito tempo como produtor contratado, pegando samba, rock, MPB… Eu ficava 24 horas no estúdio. Mas a grande mudança foi o deslocamento da ação do diretor artístico. Eles eram as figuras-chave das gravadoras. Eram os caras que davam o a concepção artística da gravadora, a sua identidade. Eles eram os descobridores de talento e que cuidavam de todo o repertório, parte fundamental de qualquer carreira artística. Nesse período, as gravadoras arriscavam. Você podia pegar artistas sem ter certeza que ia vender. E as carreiras de grandes artistas que nós temos hoje foram criadas nessa concepção. As gravadoras “cresciam” o cara no estúdio. Não havia aquela pressão louca de venda. Até porque eles tinham o casting artístico de venda, com produtos mais comerciais. Hoje as gravadoras só pensam no mercado. Não existe mais esse investimento a médio, longo prazo. Eles querem resultado imediato.

Estrombo: Não é mais aquela aposta que vai desde o início.

M.B.: Nos anos 90, quando eu saí, já essa sentia dificuldade, pra onde a gente estava caminhando. Mas por outro lado, cabe hoje aos selos independentes essa pesquisa, esse investimento, o laboratório do artista. Lá, você vai desenvolver um perfil do artista, a personalidade dele…

Estrombo: Então, esse é um dos principais papeis dos selos independentes hoje?

M.B.: O que acontece: é muito difícil você desenvolver uma carreira já lançando doze músicas. Se o perfil do artista ainda não está desenvolvido, maduro, tem o risco de queimar. Antigamente, esse laboratório envolvia o single. Você lançava duas músicas e elas nem sempre aconteciam. Então, no início da carreira, você não vende o artista, você vende a música. Esse era o investimento a longo prazo. Quem é esse artista? Qual é o tipo de música onde ele vai se expressar melhor? Que tipo de arranjo, que tipo de sonoridade vai ser mais adequada pro que ele tem a dizer? Será que esse cara realmente tem alguma coisa a dizer ou ele é só um produto da mídia? Tinha essa separação: aquele que era o cara do mercado imediato, que está ali apenas pra suprir o que o mercado já quer; mas tem aquele que tem uma necessidade maior de se expressar. Que só consegue, de repente, dizer o que ele realmente quer dizer, em determinado estilo de música, com determinado tipo de sonoridade. São artistas complicadíssimos e foram sempre os que eu preferi trabalhar. Eu sempre escolhi os mais complicados. Na época eu me identificava mais com isso. Então com esses artistas, você lança uma, duas músicas, às vezes não dava certo. E ia assim até descobrir qual era a identidade dele. Sua identidade sonora mesmo, musical.

Estrombo: Mas sempre lidando com o mercado, né?

M.B.: Sim, claro. Mas tinha mais tempo pra chegar no mercado. Você tinha tempo pra errar, experimentar. Nesses singles, às vezes o cara acertava uma música, depois outra, aí fazíamos um LP com as músicas que ele acertou. Depois, um segundo LP. Pra você investir num artista novo, tem que estar preparado para ter um prejuízo durante quatro, cinco anos. Você precisa buscar uma identidade, por mais construída que ela seja. Você vai construir baseado numa matéria-prima que existe. Como que eu vou transformar isso, viabilizar isso da maneira mais autêntica possível? São trabalhos complicados.

Estrombo: E quando o artista começa a vender?

M.B.: Chega no momento em que o público não está comprando mais a música, mas sim o artista. Quando chega nesse crossover da carreira deles, o cara começa a virar um grande artista. E todos aqueles discos que deram prejuízo na carreira dele começam a vender também. O cara morre e continua tocando no rádio, continua vendendo. Isso não tem mais nas gravadoras. Agora, os selos independentes estão aí pra isso, pra fazer esse laboratório.

Foto: Vinyl Heaven, por realsmiley, CC BY 2.0

Como é o trabalho de um compositor de música para games?

Um mercado que ainda precisa se desenvolver bastante no Brasil é o de trilha sonora para jogos eletrônicos. Ainda que seja um campo profissional restrito, alguns músicos se arriscam e investem numa produção bem diferente da que estamos acostumados. Uma dessas pessoas é o compositor Thiago Adamo. O artista e produtor já fez mais de 15 trilhas, para games diversos, e lançou dois CDs com música de games. Confira abaixo a entrevista que o Estrombo realizou com ele e deixe sua opinião nos comentários.

Estrombo: Como o trabalho de um compositor de música para games se diferencia do trabalho de outros compositores?

Thiago Adamo: Basicamente, quanto ao uso das peças musicais criadas. No cinema, a peça é criada com a finalidade de sonorizar apenas uma cena de duração fixa. Para games, normalmente, o compositor vai criar músicas que podem ser utilizadas em forma de loop em estágios ou fases que podem durar mais de uma hora, por exemplo. Essa diferença gera uma série de técnicas especificas na composição de trilhas para videogames.

Estrombo: Como você chega à conclusão de que determinada música é a ideal para um certo game?

T. A.: No começo de qualquer projeto existem reuniões para definição da estética que os desenvolvedores querem para o game. Porém, o mais comum é o envio de artes conceituais do jogo, gameplays, videos e o GDD (Game Design Document) documento que contém um mapa geral do jogo. Recebendo o GDD, existe um processo em que o compositor define a estética musical do projeto baseado no tipo de projeto, público-alvo etc. Definida a estética, criamos as primeiras partituras ou pré-produção das músicas. Com isso, validamos com o cliente se o rumo está certo. Depois, finalizamos a produção, fazemos a mixagem e masterização e enviamos ao cliente para aprovação final.

Estrombo: Existe um grande mercado no Brasil para compositores de trilhas sonoras para games?

T. A.: Não. Ainda são poucas as desenvolvedoras que sabem da importância em contratar um profissional realmente focado em música. Existe a ideia errada de que qualquer um pode compor música – e sabemos que isso não é verdade, pois existe muito estudo envolvido. Hoje, o mercado onde mais profissionais são contratados para trabalhar de forma séria é o mercado dos advergames.

Estrombo: Então, o que deve fazer o músico que quer investir na área?

T.A.: Estudar composição musical, produção musical e focar no entendimento da estética musical de games. Aqui no Brasil não existe nenhum curso especifico, mas lá fora temos diversos cursos e livros especificos para composição musical para games. Além disso, ele deve tentar se diferenciar dos demais, pois, como o mercado é bem limitado, só quem tem algum diferencial em relação ao estilo e à apresentação do material é que vai sobreviver.

Estrombo: Como fica a questão do direito autoral no caso das peças compostas para games?

T.A.: Depende muito do acordo feito entre a empresa e o compositor. Primeiramente, o compositor precisa registrar a peça em seu nome. Feito isso, ele pode transferir de forma restrita (como muitas bandas fazem) ou total (como muitos compositores fazem) os direitos da música para a produtora do jogo. Isso é feito através de um contrato ou um adendo no próprio registro da peça musical. A transferência restrita garante permissão para que a música seja utilizada somente no jogo. Caso a empresa queira vender a música ou fazer qualquer outro tipo de exposição, ele precisa assinar um novo contrato com o artista para cessão destes direitos. A transferência total tira completamente o direito de exposição da música do autor original, sendo uma espécie de sociedade onde o autor aceita um valor cheio ou royalties por exibição.

Estrombo: Quais programas e instrumentos você usa para compor?

T.A.: Eu uso o Ableton Live, Logic Pro. Também trabalho com duas controladoras: uma Akai MPK e uma APC 40. Eu tenho um estúdio completo, com mesa, placas de som…

Estrombo: Tem algum trabalho do qual você gostaria de falar um pouco sobre ele?

O Gears of Music, tributo ao som do game Gears of War, foi lançado de forma física como brinde junto com o jogo. Foi um trabalho curto, rápido e que eu pude me expressar tanto de forma artística como compositor de trilhas. Até hoje é meu grande orgulho, tendo mais de 30 mil downloads e espero fazer mais trabalhos desse tipo. Outro trabalhão de que me orgulho foi o Clash of Game Music, um CD com muitas composições originais minhas e que tem a faixa Falling – uma das minhas composições mais divulgadas pela Internet. Realmente, criar trilhas inspiradas com remixes e temas originais é um modelo que me agrada tanto artisticamente como musicalmente falando. Com certeza, farei mais trabalhos do tipo logo logo, como o Diabólica Sinfonia que vai sair em breve.

* * *

Acompanhe o Estrombo também nas nossas redes: Twitter, Facebook e YouTube.

Foto: Mixdown!, por spaceamoeba, CC BY-SA 2.0

Licenciamento flexível e os novos canais de distribuição de música

Dentre as mudanças que acontecem na cadeia produtiva da música em decorrência de avanços tecnológicos, uma consiste nas novas maneiras de licenciar os usos da produção. Através de licenças públicas como a Creative Commons, por exemplo, o artista pode estipular e comunicar previamente os usos permitidos à coletividade, de acordo com sua vontade.

Flexibilidades como esta mostram-se bem-vindas quando consideramos os novos canais de distribuição baseados na internet. Se um dos problemas apontados pela indústria fonográfica é o tráfego irrestrito e fora de controle de músicas protegidas por direitos autorais, com licenças como a Creative Commons, os artistas podem liberar determinados usos e dispor suas condições para outros usos de suas músicas (como o uso para fins comerciais, por exemplo), se beneficiando do tráfego de bens culturais digitais na rede. Hoje, são milhões os livros, imagens e obras musicais que circulam livremente pela internet através dessas licenças. Um desses trabalhos é o álbum Metá-Metá, de Juçara Marçal, Thiago França e Kiko Dinucci, que vem ganhando resenhas bastante positivas ao longo do ano. Confira a entrevista abaixo com Kiko Dinucci.

Por que optar pela licença Creative Commons?

Optei pela CC por ser uma alternativa a mais, é lógico que não sou fã de ter que haver um modelo internacional pra liberar a minha obra para ser ouvida por qualquer um, mas é a melhor opção em contrapartida dos gastos dos modelos antigos de direitos autorais. Foi importante botar o selo no site, deixou as pessoas à vontade para baixar e compartilhar, para os blogs espalharem a minha arte. Minha arte foi nitidamente espalhada, meu público aumentou com isso. Fiz um show em Brasília na semana passada e a maioria do público cantava as músicas, vendi CD depois do show muito mais do que venderia em lojas, pra mim está tudo certo. A música grátis é o meu veículo, é minha rádio. Atiro minha garrafinha no mar e alguém sempre acha e lê o recado que eu deixei lá dentro.

Foi também por esse motivo, aumentar a circulação da música, que o Metá-Metá se associou ao aplicativo Bagagem?

O que mais me chamou a atenção no Bagagem era a opção de um novo formato digital, que de certa maneira recuperava as estética visual das capas dos discos e encartes. Quando o CD ganhou popularidade, era horrível ver capas como a “Sargent Pepper’s” apenas diminuídas, o CD demorou pra desenvolver a sua linguagem visual. A música digital também passa por essa crise. Achei sedutor de ter coisas visuais em volta da música, não como clipe e sim como continuação do disco. Os nossos amigos do Axial já estavam lá e ficamos fascinados com tudo e resolvemos aderir ao Bagagem. O aplicativo ajudou muito na divulgação do trabalho também, porque não era somente um disco MP3 pra baixar, tinha todo um universo lá dentro, outros grupos e tal.

Você acredita que esses novos canais de circulação e formas de licenciamento livre estão renovando a maneira de fazer negócio com música?

Tenho certeza disso, pelo menos pra mim, um artista independente, que estou acostumado a fazer por mim mesmo, sem atravessadores. Mas acredito que tudo está se renovando no mercado. As coisas “no mundo” estão mudando, muda quem quer. Na Europa, por exemplo, eles não estão acostumados em disponibilizar cultura na rede, gratuita, eles pagam para consumir cultura. A cultura livre aqui no Brasil não é 100% livre também, mesmo eu licenciando minha obra dessa maneira, você terá que pagar a rede, o provedor etc. O fato de minha obra circular livremente na rede foi o que me tirou do anonimato, tenho certeza disso. Se o único modelo fosse o dos anos 90 pra trás eu não teria gravado nenhum disco ainda. Pra mim, o licenciamento livre significa a minha única alternativa de sobrevivência, claro que gostaria de ganhar por downloads, ter cachês maiores, mas no meio de tanta crise e transformações econômicas eu estou conseguindo sobreviver. Não sei até quando, mas o movimento a favor da minha arte é crescente, lento, mas crescente.

- x -

Como mencionado pelo músico, o aplicativo Bagagem, concebido por Felipe Julian do Projeto Axial, atualiza os aspectos visuais dos formatos musicais físicos para as redes digitais. A obra do Axial também é distribuída sob licença Creative Commons e, na semana passada, o mais recente álbum da banda ganhou também uma versão física: o livro-cd Simbiose. Felipe explica o novo lançamento como “uma certa necessidade de retorno aos objetos, como compensação à virtualização das coisas”: “O objetivo foi criar uma experiência sensorial, onde os dois produtos são independentes, mas também complementares”, contextualiza o músico. E completa ao afirmar que o CD deve ser também uma experiência artística e não um objeto descartável. Por enquanto, o livro-cd Simbiose é vendido somente pela recém-inaugurada loja online do Projeto Axial.

Entre nessa discussão. Baixe o Bagagem e conheça mais sobre as licenças Creative Commons.

O Estrombo também está nas redes sociais: Twitter, Facebook e YouTube.

Farol Digital

 

siga o @estrombo

Facebook