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Economia Criativa: saindo do século XIX e entrando no século XXI

Por Lala Deheinzelin

Eis aqui uma notícia que deveria estar em manchete nos jornais, trazida por Wang Xingquan, da Shanghai Academy of Social Sciences: neste ano, e como conseqüência da crise financeira, a Economia Criativa passou a ser a estratégia número 1 de desenvolvimento da China! Sábia decisão: por se tratar de economia baseada em recursos que não apenas não se esgotam, mas se renovam e multiplicam com o uso, a Economia Criativa é uma das únicas soluções possíveis para um futuro sustentável. Afinal, os recursos naturais são finitos, mas cultura, conhecimento e criatividade são recursos infinitos (ainda mais se aliados aos infinitos bits das novas tecnologias).

Enquanto isso, por aqui, nota-se que a Economia Criativa começa a estar na pauta de candidatos e governos, o que me deixa feliz, já que sou pioneira do tema no Brasil. Pena que avance tão pouco e que ainda seguimos modelos importados que não se aplicam ao nosso cenário. Seguem algumas sugestões de estratégias na esfera pública para que a Economia Criativa cumpra seu papel como motor de desenvolvimento sustentável.

Convergência: Planejamento e gestão devem ser feitos de forma integrada, unindo várias pastas, como Planejamento, Ciência e Tecnologia, Relações Interiores, Cultura e outros. Para isso são necessários instrumentos de governança, instâncias de tomada de decisão e gestão como Agência de Desenvolvimento, ou Agência de Sustentabilidade que “orquestram” a ação integrada (e tem um plano de longo prazo e técnico, que não pode ser mudado com novos governos).

Para nos orientarmos necessitamos duas coordenadas que se cruzam e nos localizam. Seguem alguns pares interessantes.

Visão sistêmica: hardware + software: Considerar não apenas a parte “hardware” (estrutural, recursos materiais, tangível, ecossistema ambiental) mas principalmente a parte “software” (processos, recursos humanos, intangível, ecossistema sócio cultural). Exemplo: os processos de restauro e revitalização geralmente contemplam apenas o estrutural, as obras arquitetônicas. E tendem a fracassar pois não tem o “software”: a parte humana, os processos ligados à educação, geração de conteúdo e de renda, mudança de mentalidade. Neste sentido, são assustadoras as perspectivas em relação ao que está sendo pensado para Copa do Mundo e Olimpíadas – “hardwares” caríssimos que tendem a deixar pouco além de enormes dívidas.

Setorial + territorial: tradicionalmente a Economia Criativa é organizada e fomentada em setores (audiovisual, moda, artes plásticas etc). Problema 1: está cada vez mais claro que a chave está no local, no território, é aí onde o desenvolvimento pode acontecer. Problema 2: o futuro está na economia de nicho, onde muitos e diversos produzem para muitos e diversos. Ocorre que o “blend” que diferencia e gera valor de cada criativo, coletivo, empresa ou município é uma mistura de setores. Problema 3: o futuro não é setorial, pois os limites entre as linguagens e área serão cada vez mais difusos. Problema 4: metade dos municípios do Brasil tem até 10.000 habitantes, fica difícil pensar em estratégias setoriais quando a escala é pequena.

Produção + circulação/promoção: as políticas geralmente dão apoio a produtos (e não a processos) ou seja à produção. Mas o maior investimento deveria ser feito nos pontos de gargalo de todas as áreas da Economia Criativa: circulação (ser distribuído) e promoção (ser visível e desejado). Garantir a circulação e visibilidade resulta em produção (vide o caso do Circuito Fora do Eixo).

Transdisciplinar, multifuncional: Esse é o conceito que deveria orientar tanto a formação de novos profissionais pois precisaremos muito de profissionais “modem” que dominem várias disciplinas, conectando linguagens e áreas diferentes, quanto a criação de espaços públicos, que devem ser pequenos, adaptáveis, multifuncionais o que permite otimizar recursos, espaço e tempo.

Formular política que atenda a estes quesitos é possível e já foi feito. Por exemplo aquela criada por Célio Turino: os Pontos de Cultura/Programa Cultura Viva, um dos conceitos mais em sintonia com o futuro que conheço e que espero que tenha continuidade.

Agora resta aos nossos líderes não perder o bonde da história, o que acontecerá se continuarmos com políticas e economia ainda com cara de “milagre brasileiro”, anos 70, indústria de commodities…

Vamos avançar para o século XXI?

[Fonte: Mercado Ético. Publicado em 19/01/2011]

Relatório: “Pirataria de mídias nas economias emergentes”

À medida que a tecnologia digital fica mais barata e acessível, observa-se também o crescimento de pressões pelo endurecimento da legislação para a proteção de direitos autorais. O debate sobre o assunto é o tema da hora no Brasil e no mundo.

Nesta semana, foi lançado o relatório internacional “Media Piracy in Emerging Economies”, o primeiro estudo independente focado na relação econômica e social dos países emergentes com a pirataria. O extenso documento, elaborado pelo SSRC – Social Science Research Council, conta com estudos de caso que investigam a pirataria midiática – músicas, filmes e softwares – em seis mercados emergentes: África do Sul, Rússia, Brasil, México, Bolívia e Índia. São resultados de 3 anos de trabalho desenvolvidos por 35 pesquisadores nestes países.

O relatório está disponível para download neste link. O ex-ministro da Cultura Gilberto Gil observa que “este notável estudo deveria ser leitura obrigatória para qualquer pessoa preocupada com os direitos autorais e sua aplicação, ou com os desafios da globalização cultural”.

Algumas conclusões interessantes

A primeira delas pode parecer óbvia, mas é uma questão central para investigar a pirataria digital: os preços estão muito altos. A combinação entre os altos preços cobrados para o acesso a bens midiáticos, renda baixa e tecnologias digitais baratas é o principal ingrediente para a pirataria global apontado pelo estudo. Outra conclusão apontada no documento é que as companhas “anti-pirataria” falharam sistematicamente. Nessa mesma direção, conclui-se ainda que a repressão legal via processos cíveis e criminais não funcionou – de acordo com o estudo, mais de uma década de ações não resultou em qualquer impacto no fornecimento e consumo de bens piratas nos países emergentes.

“O dilema do consumidor”

O relatório pode ser baixado no site do Social Science Research Council, que criou uma licença especialmente para o lançamento desse documento. A licença chama-se Consumer’s Dilemma (“Dilema do Consumidor”) e oferece caminhos criativos para a aquisição do estudo. Primeiro, eles mapeiam o endereço de IP e os visitantes de países desenvolvidos são convidados a pagar US$ 8 para fazer o download; todos os outros endereços de IP, do Brasil inclusive, têm acesso gratuito. A outra possibilidade de aquisição é através da licença para “leitores comerciais”, que custa US$ 2000. E também é possível comprar a versão física – livro impresso sob demanda – que custa US$ 28.

Essa licença já sofreu algumas críticas, mas o coordenador do projeto Joe Karaganis argumenta nos seguintes termos: se você mora em um desses países listados como ‘alta-renda’ e quer ler o relatório, mas acredita que pagar US$ 8 é inviável, você certamente encontrará formas de adquiri-lo sem pagar. E, se você cair nos termos da licença “comercial”, também pode fazer como no caso anterior. A questão é que, em ambos os casos, o leitor encara um dilema: pagar o preço que deve ser pago, adquirir por canais “piratas” ou não se dar ao trabalho.

O argumento é que o “dilema”, na verdade, reflete os problemas discutidos nas pesquisas. É fato que os moradores de países de alta renda raramente são confrontados com a ideia de adquirir algo por canais piratas, já que os bens culturais em questão são feitos para eles, por eles e têm seus preços estipulados por eles – o que coloca os países emergentes em uma posição de desvantagem. O fator “alto preço” aqui é o catalisador principal do aumento da pirataria e redução do mercado legal de produtos midiáticos.

A licença “Consumer’s Dilema” é uma forma bem-humorada de reverter essa equação, mesmo que seja somente uma “encenação”. A simples escolha – pagar ou adquirir ilegalmente – pode resultar em penalidades cíveis e criminais, mesmo que estes exemplos sejam raros e arbitrários – e nesse caso, isso não acontecerá. Por isso, uma encenação do que acontece na vida real.

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No Brasil, o estudo foi conduzido pelo Instituto Overmundo e o Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getulio Vargas. Os pesquisadores envolvidos no país são: Pedro N. Mizukami, Oona Castro, Luiz Fernando Moncau e Ronaldo Lemos. A lista de colaboradores conta com Susana Abrantes, Olívia Bandeira, Thiago Camelo, Alex Dent, Joe Karaganis, Eduardo Magrani, Sabrina Pato, Elizete Ignácio dos Santos, Marcelo Simas e Pedro Souza.

A densidade dos dados apresentados ajudam a entender a relação entre direitos autorais e tecnologias digitais e, no caso dos países emergentes, o problema da produção e distribuição de bens midiáticos em um mercado legal e formalizado. Parte da experiência de pensar e criar novos modelos de negócio e canais de distribuição – proposta do Estrombo – passa pela necessidade de aprofundamento nesse tipo de pesquisa para, assim, criar modelos negócio que sejam realmente sustentáveis e condizentes com a realidade local.

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A economia da música que vem das periferias: mapear é preciso

Uma das áreas fundamentais do projeto Estrombo é a pesquisa. Ela será a base para entendermos melhor onde se localiza, quem faz parte e quanto dinheiro circula na cadeia produtiva da área da música do Estado do Rio de Janeiro. Fazer o mapeamento é uma forma de detectar gargalos e, ainda, subsidiar políticas públicas voltadas para o desenvolvimento e formalização do setor.

A música das periferias movimenta muitas pessoas e recursos, não só aqui no Rio de Janeiro, mas também em outras cidades brasileiras. É uma economia que gera grande valor, mas que ainda não é bem aproveitada e divulgada. Um exemplo do que acontece no Rio de Janeiro é o funk carioca.

Pesquisa realizada pela FGV mostra que, só em ingressos para os bailes, o funk movimenta R$ 10 milhões por mês. Identificar essas economias emergentes e fazer com elas dialoguem entre si (e com as demais economias criativas) é importante para estimular o desenvolvimento de diferentes modelos de negócios.

“Um aspecto importante do projeto é que ele não se prende a um único tipo de música. Uma das constatações que levaram à criação do projeto é que existe toda uma economia vindo das periferias das cidades brasileiras, inclusive aqui no Estado do Rio de Janeiro, que tem um vigor econômico muito grande”, afirma Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getulio Vargas, sobre o Estrombo, em entrevista concedida no dia do lançamento do projeto. Assista o vídeo da entrevista:

Se você ou seu empreendimento buscam desenvolver negócios em torno da música, participe do projeto Estrombo. Inspire-se no blog do Estrombo e acompanhe as novidades também no Twitter, Facebook, Youtube e Flickr.

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