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Economia Criativa: Identificação de necessidades na música

Foto: Fulô de Araçá, CC BY 2.0

E se pudéssemos criar mecanismos que nos permitam movimentar uma economia usando recursos infinitos? Essa é a premissa da economia criativa, que continua a crescer por aqui – e o nosso setor cultural ainda pode ser muito privilegiado por ela. Por ter como matéria-prima as ideias e a própria criatividade, a economia criativa desenvolve produtos e gera negócios sustentáveis, dando conta de necessidades específicas através de propostas inovadoras.

O mercado da música está se reestruturando frente a desafios já não tão novos assim da cultura digital. Empreendedores da música geram negócios com seus produtos articulando redes de artistas, fãs, designers, produtores, casas de show, distribuidoras gráficas etc. Muitas vezes essa cadeia vai atuar em nichos, identificados através dos gêneros musicais, das referências locais ou do público-alvo. É aqui que reside o principal ponto de contato entre a economia criativa a os novos modelos de negócio para a música. Ainda que seja importante pensar o mercado fonográfico em escala nacional ou global, também é muito produtivo que empreendedores consigam se articular em microcosmos. Ao invés de tentarmos reinventar o negócio da música, porque não aproveitar as oportunidades trazidas com as tecnologias digitais para criar algo novo?

Pensar global, agir local

Atuar localmente pode ser o primeiro passo para um desenvolvimento sustentável na sua região. A identificação de necessidades locais, como a reforma ou criação de uma área para eventos, pode articular uma cadeia produtiva das mais variadas que não só vai ser responsável por montar estruturas como por reativar o comércio local. O crowdfunding, por exemplo, que vem sendo usado tanto para gravação de discos quanto para a realização de shows, reúne proponentes e incentivadores num só lugar, sem depender de meadiadores burocráticos; uma outra forma de movimentação econômica através da identificação de necessidades específicas. Por fim, vemos como modelos de distribuição musical vêm se desenvolvendo nos últimos anos aproveitando o potencial de circulação das redes sociais, dos aplicativos móveis e da penetração da música digital on-line nos mais diversos espaços virtuais.

Esses são apenas alguns exemplos de como podemos pensar numa economia criativa para a música. Quais são os seus?

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Foto: Fulô de Araçá, CC BY 2.0

SEBRAE e FIRJAN promovem o “Encontro Economia Criativa”

O SEBRAE e a FIRJAN tem o prazer de convidá-lo(a) para o evento “Encontro Economia Criativa”, que visa apresentar e discutir assuntos ligados ao tema, abordando: Cidades Criativas, Movimentos Criativos e Projetos Criativos Sustentáveis, como parte da grande ação paralela da FIRJAN às atividades da Conferência Rio+20, em parceria com a FIESP e Fundação Roberto Marinho e patrocínio da Prefeitura do Rio e SEBRAE.

Dia 13 de junho de 2012, de 9h às 13h

Espaço das Ideias Circulantes – Forte de Copacabana.

Encontro Economia Criativa

No site da revista ARede: “Um negócio bem afinado”

Foto: Heavy Roc Music, por p_kirn, CC BY-SA 2.0

Projeto Estrombo, do Rio de Janeiro, articula agentes culturais para enfrentar profissionalmente os desafios tecnológicos da nova cadeia produtiva da música.

Por João Varella

Em 2003, quando decidiu gravar seu disco de estreia, a mineira Raquel Coutinho se isolou em uma fazenda para fazer pesquisas e experimentações. Em meio ao paraíso das montanhas da Serra do Cipó, em Minas Gerais, não tinha acesso a televisão e telefone, muito menos a internet. Em 2007, quando o álbum Olho d’água
ficou pronto, o mundo fonográfico era outro. O pouco poder que ainda restava às gravadoras parecia ter se esvaído completamente, levado pela popularização da banda larga e pelo download de músicas. Cento e quarenta caracteres bem escritos conseguiam fazer mais barulho que uma campanha publicitária milionária.

Artista com repertório de vastas influências musicais, Raquel não estava preparada para o novo cenário. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se abriram portas surpreendentes: um amigo sugeriu que participasse do Estrombo, projeto do Sebrae-RJ que visa capacitar agentes culturais musicais a atuar com novos modelos de negócios e novos canais de distribuição baseados na internet e nas novas tecnologias. Com essa aproximação, Raquel teve a oportunidade de expôr seu trabalho em duas feiras internacionais, na Dinamarca e na França.

Criado em 2010, o Estrombo é inédito no mundo. Foi a primeira iniciativa de economia criativa – como são chamadas as atividades diretamente vinculadas a inovação, tecnologia e criatividade – a ser apoiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), por meio do Fundo Multilateral de Investimentos. O
investimento total é de US$ 2,1 milhões, sendo US$ 710 mil do BID, para um objetivo central: capacitar compositores, instrumentistas, cantores e produtores a aproveitar as tecnologias digitais para administrar seus próprios negócios.

O projeto tem tudo a ver com a palavra “estrombo”, que designa uma espécie grande de caramujo marinho. “A concha do estrombo funciona como uma caixa de ressonância, que concentra e amplifica os sons. A reverberação, que gera barulhos parecidos com o do mar, é a soma dos vários ecos produzidos”, compara Marília Faria, coordenadora do projeto. Ela refere-se a uma corrente em que a venda de discos e DVDs é apenas um elo, hoje talvez um dos mais frágeis. Comércio online de fonogramas digitais, shows, ringtones, trilhas para filmes e games, direitos autorais, venda por download são alguns elementos da nova música.

Essa ressonância empreendedora já envolveu Raquel e outras 2.400 pessoas, que receberam apoio para aprender a lidar com a nova realidade, em que a proatividade dos interessados é fundamental. Aos poucos, eles percebem que é possível gerar negócios formais a partir de financiamentos, investimentos, contratações, editais etc. A ideia por trás disso é: quem quer viver de música precisa tirar as ideias da cabeça e transformá-las em projetos e, dessa forma,
passar a administrar sua arte como uma “empresa” onde se trabalha para si próprio. E de forma articulada e coletiva. “As pessoas ficam se olhando, esperando. Agora o modelo pede que os novos talentos ajam”, analisa Marília.

Venda e Circulação

O produtor Daniel Domingues, frequentemente convidado a dar palestras nas oficinas do Estrombo, concorda com Marília. Ele recorda que em passado recente o músico via-se obrigado a pagar para as rádios tocarem a chamada música de trabalho, uma prática apelidada de jabaculê, ou apenas jabá. As gravadoras tinham
investimento seguro: para cada R$ 1 investido em marketing, o retorno era de R$ 10. “Com a internet, a coisa começou a mudar. O artista é obrigado a pensar em um projeto de circulação antes de sair um disco”, diz.

A queda do modelo de venda de discos afeta artistas de todos os portes. Um exemplo é Madonna, cujo álbum MDNA, lançado em março deste ano, vendeu apenas 46 mil cópias na segunda semana de circulação. Os números são bem diferentes daqueles de 1984, quando a cantora registrou venda de 1,2 milhão de discos na segunda semana do LP Like a Virgin, estabelecendo um padrão de venda de pelo menos 475 mil unidades no mesmo período.

A atual lógica de distribuição e comercialização é uma faca de dois gumes. Para Marília, a questão do direito autoral ainda não está bem resolvida. Por outro lado, lembra que “até um adolescente sozinho em casa pode compor, gravar e vender a própria música”. E a produção pode chegar além-mar e em novos formatos. O artista carioca Oswaldo G. Pereira, de 44 anos, é um caso típico: negocia sua música até mesmo para ringtones de celular. Nada mal para um músico que depois do primeiro CD, Olha Zé, de 1998, chegou a cogitar trocar as rodas de pagode pelas papeladas dos fóruns. “O caminho da música estava muito difícil”, recorda.

Na formatura do curso de Direito, Pereira fez uma apresentação de samba para os colegas. Depois, gravou outros dois álbuns e se uniu ao Estrombo. Conseguiu mostrar sua arte em feiras internacionais, apresenta-se na Europa e negocia com gravadoras internacionais, enfrentando o desafio dos contratos que parecem
escritos em chinês. Bem, um deles é literalmente em chinês. Aí a solução é pedir ajuda à assessoria de tradutores e juristas do próprio Estrombo, que tem uma equipe para isso.

Além do Sebrae e do BID, o Estrombo fez uma parceria com o Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas (FGV), cujos professores ajudam na capacitação dos profissionais de música. Da união com o projeto Open Business, também da FGV, nasceu o programa Farol Digital, de capacitação para empreendedores de lan houses. A experiência está registrada no webdocumentário Farol Digital: a lan house como centro de inclusão social e cultural, dirigido por Lao de Andrade e que trata da importância desses espaços na inclusão digital, seja por meio de jogos, da educação ou da prestação de serviços de governo eletrônico.

O Estrombo não é um mero exportador de cultura. Alguns projetos apoiados pelo Sebrae têm como proposta agitar o interior do Rio de Janeiro com festivais e apresentações. A trupe de cinco produtores do coletivo Ponte Plural atravessa as fronteiras da região metropolitana em busca de agentes culturais dispostos a promover eventos gratuitos ou a preços populares. Mais de 600 cidades já foram mapeadas pelo Zonte Plural, segundo Luiza Boitencourt, 29 anos, uma das coordenadoras da organização. “O foco é a música, mas nos festivais tentamos integrar outras artes, como poesia, arte individual, fotografias, quadros, dança e circo. A gente sempre procura agregar, para estimular todas as áreas”, revela. Um exemplo é a Banda Tereza, que faz parceria com a Ponte Plural em
projetos como a festa “Nunca fui a Barretos”, em 2010, em Niterói.

Além de trazer artistas locais, a Ponte Plural estimula o intercâmbio. Quando o projeto chegou à região serrana do Rio de Janeiro, era distante a relação entre agentes culturais de Nova Friburgo e Petrópolis, separadas 120 quilômetros. Entre as duas cidades está Teresópolis. O jeito foi articular os coletivos dos três municípios, que passaram a receber edições dos festivais Grito do Rock e Fora do Eixo, além de diversas oficinas.

A certeza de que esse tipo de iniciativa é firme fez Luiza largar a carreira de advogada e, a partir deste ano, se dedicar exclusivamente à Ponte Plural. Confirmando uma das características da economia criativa no Brasil, de atração de pessoas das mais diversas áreas do conhecimento, o coletivo é integrado por outro advogado, um jornalista, um cineasta e uma estudante de estudos de mídia, todos dispostos a enveredar de vez para a área da cultura e em busca dos recursos obtidos por editais e leis de incentivo.

Outra pessoa que mudou radicalmente a área de atuação para trabalhar com música é a empreendedora Lizete Fregonesi. Bióloga com doutorado em fisiologia, acabou trabalhando em grandes empresas da área de finanças e com seguros. Em 2008, entrou em contato com o Sebrae para dar nova guinada profissional: criou a FRG Cultural, empresa que agencia e produz artistas do Rio de Janeiro.

Quem estiver interessado em dar uma guinada na carreira em direção à música com ajuda do Estrombo pode se cadastrar no site oficial ou participar dos eventos.

Fonte: ARede nº 80 – maio de 2012

Foto: Heavy Roc Music, por p_kirn, CC BY-SA 2.0

Inovação no negócio da música: fruto de trabalho e informação

Die Felsen im Studio - flickr - scytale - 5349316885 - CC BY 2-0

Negócios inovadores não caem do céu. A celebração de novos modelos de negócio e canais de distribuição para a música podem levar a crer que “basta uma boa ideia”. As boas ideias são o ponto de partida principal, mas não se deve parar por aí. Até tirar o projeto do papel, o empreendedor deve passar por uma série de etapas, como: registrar a ideia, planejar seu percurso, montar um plano de negócios e se aliar com as pessoas certas – afinal, mesmo na internet, duas ou mais cabeças continuam pensando melhor do que uma.

As novas tecnologias digitais são um amplo campo de oportunidades ainda por explorar. No caso da música, seja através das redes sociais ou dos aplicativos móveis, empreendedores investem tempo e dinheiro na criação de seus negócios próprios. Muitas das soluções ainda não são a solução final para o “problema” enfrentado pela música ao longo dos últimos dez anos, mas são fagulhas de inspiração prontas para serem aproveitadas por outras pessoas. Assim, o ciclo de inovação não se completa nunca, com muitas boas ideias surgindo o tempo todo.

Na internet, futuros empreendedores encontram um banco enorme – e alimentado continuamente – de informações sobre etapas que precisam ser percorridas e até mesmo experiências de outros profissionais. Outra fonte de informação importante é o próprio SEBRAE/RJ, que presta assessoriasobre maneiras de formalizar o seu negócio, impostos que deverão ser recolhidos e como montar o plano de negócios.

Uma boa ideia, seja para o mercado da música ou qualquer outro, só nasce depois de muita informação e trabalho. Dê o primeiro passo!

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Dica de leitura: Um raio-X do empreendedor digital brasileiro

Foto: Die Felsen im Studio, por scytale, CC BY 2.0

No Overmundo: “O que significa a originalidade no mundo de hoje?”

Rádio

Por Ronaldo Lemos

O texto abaixo é resultado de uma conversa com o jornalista Bruno Yutaka Saito. Ele trata da questão da “originalidade” e de como ela acontece hoje, em um mundo transformado o tempo todo pela tecnologia. É claro que é um começo de uma conversa que não tem fim, mas ei-lo aqui.

Bruno: É importante ser original na música hoje em dia? A originalidade é superestimada?

Ronaldo Lemos: Vivemos em um momento em que há um culto enorme à originalidade e à inovação. Isso acontece não só na cultura, mas também na ciência, na economia e na sociedade em geral. A ideia de “originalidade” ou “novidade” tem uma função muito peculiar nos nossos tempos: estimular o consumo. O culto à originalidade leva a uma busca cada vez mais acelerada pelo novo. É só pensar em como a moda cresceu em importância global nos últimos 15 anos: os ciclos da moda estão cada vez mais rápidos. A função da moda não é gerar novidades, mas sim fazer com que o novo se torne obsoleto o mais rápido possível. E isso estimula o consumo de forma permanente. Dá para ver isso na música e na cultura de modo geral. A todo momento surgem estilos ou cenas novas, que se tornam populares do dia para noite, e depois ficam fora de moda. É como o consumo cultural tivesse se aproximado da dinâmica da moda.

Bruno: Você acredita que a banda larga/mp3/ipod ao mesmo tempo em que tornaram a música um bem muito mais acessível, ao mesmo tempo transformou-a numa coisa inofensiva, apenas um som ambiente enquanto fazemos tarefas diárias?

RL: A internet e a cultura digital aumentaram enormemente a produção e o acesso à música. O problema não é que a música se tornou inofensiva, ao contrário. Olhando com cuidado, mesmo no pop há músicas mais “perigosas” do que jamais foram feitas. O atirador da Noruega, por exemplo, fez uma “playlist” com artistas segregacionista para estimular outros insanos. No entanto, nossa atenção hoje é difusa demais para prestar atenção em cada detalhe. Mas nem por isso a música deixou de ter impacto social: ela continua essencial na construção de identidades coletivas e também como expressão de contextos e ideias políticas (como a música “gay” que nunca parou de crescer, tem a ver com liberdade e afirmação, e se materializa em festivais e baladas próprias).

Bruno: Em uma entrevista neste ano ao Guardian, Godard disse: “Film is over. It’s sad nobody is really exploring it. But what to do? And anyway, with mobile phones and everything, everyone is now an auteur”. Essa ideia pode ser aplicada à música? A atual cultura do remix (não só na música eletrônica, mas de uma forma geral) e o enorme manancial de arquivos digitais mudaram para melhor a música, democratizando-a?

RL: Essa ideia expressa pelo Godard de que o cinema morreu diz respeito a uma ideia específica de cinema. E mesmo esse cinema não morreu. Ele continua fazendo muito sentido, produzindo obras incríveis. A questão é que ele compete hoje com muitas outras práticas de expressão audiovisual. O que ele vê como “morte” é apenas um deslocamento: o “cânone” ocupa mais um lugar central, ele muda de posição, passa a conviver com outras formas, fica descentralizado. Mas mesmo assim, dentro dessa nova posição, não significa que tenha perdido vigor. Nunca se produziu tantos filmes ou tanta música. Esse momento atual representa também uma explosão de criatividade.

Bruno: Você costuma escrever que a música vibrante atualmente é produzida nas periferias do mundo. Por que isso acontece? Mas, mesmo o tecnobrega: ele realmente é “novo”, uma vez que remete aos anos 80?

RL: A inovação vem cada vez mais das pontas, das margens. Com a música não é diferente. Quanto mais próximo você está do centro mais próximo está também de linguagens, estilos e práticas consolidadas. Claro que dá para ser criativo, mas em geral isso acontece dentro de modelos já conhecidos. Já a música periférica não tem essa preocupação. São cenas vivas e mutantes, que produzem muito e onde há um espaço enorme para o acidente, a precariedade e o acaso. Não precisam “passar recibo” para nenhuma estética mais estabelecida. Quando isso é conjugado com a internet e a tecnologia digital, há uma explosão global. Cenas se fortalecem e outras aparecem em todo lugar, como a champeta na Colômbia, a cumbia villera na Argentina, o bubllin na Holanda e no Suriname, o kuduro em Angola, o shaghaan electro na Africa do Sul e assim por diante. No Brasil, há o tecnobrega, o funk, a pisadinha, o lambadão cuiabano,o forró eletrônico só para dar alguns exemplos. São músicas superpopulares, que falam para milhões de pessoas e dialogam entre si sem passar pelo “centro”, que torce o nariz para o fato de serem abusadas e nada respeitosas com o “cânone” do bom gostousual. De tempos em tempos, períodos de reinvenção macontece também no centro, como nos anos do pós-punk e 79 a 81, ou na primeira geração das raves de 89 a 92. Só que nas pontas esse processo é permanente.

Fonte: Overmundo

Farol Digital

 

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