Blog

Grandes nomes da música brasileira: entrevista com Mayrton Bahia – Parte 3

Be Sociable, Share!

Foto: mini studio, por tacoekkel, CC BY-SA 2.0

Estrombo: Você acha que com o barateamento dos equipamentos de gravação, novos canais de distribuição e tecnologias, é mais fácil viver de música hoje?

M.B.: Eu acho que é mais fácil no sentido de dar visibilidade a pessoas que jamais teriam essa possibilidade se não fossem essas tecnologias. Claro que é mais difícil por outro lado, porque também tem muita gente com acesso à tecnologia.

Estrombo: Então, existe uma competição por atenção?

M.B.: Existe porque todo mundo tá querendo atenção. Aqueles que têm o que dizer, e aqueles que não tem muito o que dizer. É nessa hora que eu acho que precisa do produtor… não só do produtor, mas também de um bom diretor midiático, digamos assim. Ele vai descobrir também qual é a melhor mídia para o que você tá fazendo, o melhor nicho.

Estrombo: Nesse sentido, você acredita que a cadeia produtiva da música está mais diversificada, com novas funções que precisam ser incorporadas?

M.B.: Eu acho que hoje tem muitas viabilidade para as pessoas que jamais iriam ter essa chance. Na época que eu trabalhava em gravadora, recebia milhares de fitas cassete, CDs demo e a gente sabia que não tinha espaço pra todo mundo. Hoje tem. Agora, por outro lado, os artistas e as pessoas que estão junto com eles precisam desenvolver uma nova competência para não cair na rede na mesmice generalizada. Você tem condição hoje de alcançar o mundo inteiro, mas tem que começar pelo seu nicho, achar a tua turma e o seu perfil. E descobrir qual é maneira melhor de você trabalhar aquela tecnologia. Acho que o marketing e essa “era da farsa” que eu digo deu uma falsa sensação de que todo mundo é artista, no sentido de nivelar todo mundo. Por um lado é bom, mas por outro causou uma certa urgência. Então, as pessoas fazem qualquer coisa pra aparecer. Botar a cabeça de fora parece que ficou mais importante do que dizer alguma coisa. Já era difícil há um tempo atrás, precisava de um prazo médio a longo pra você estabelecer a carreira de um artista para ele se desenvolver e poder viver disso pela vida toda. Hoje, com esse excesso de canais de mídia, isso fica mais complexo ainda. Acho que precisa também de outras pessoas para afinar com o produtor musical e com o artista pra que ele consiga ter uma identidade. O risco que a gente corre hoje é a perda de identidade total.

Estrombo: Existe esse perigo do acesso ficar mais importante do que o próprio produto?

M.B.: Exatamente. Hoje, você tem muito mais acesso ao conhecimento e à tecnologia do que antes. Mas quando você pega um loop da internet, um groove já pronto, maravilhoso, tem milhares de pessoas no mundo inteiro usando esse groove. Se você não der a sua visão, não jogar quem é você nesse groove… você pode usar, mas ele por si só não basta. Essa é a diferença, entendeu? Você tem que se apropriar daquilo ali. Não é copiar ou roubar uma coisa do outro. Se apropriar é você tornar seu, interagir com aquilo e transformar numa parte sua; modificar e usar como um recurso pra você dizer quem é você. Esse é o truque da música pop: não é você inventar uma coisa que ninguém nunca ouviu, mas a maneira como você vê aquilo, como você se apropriou daquilo e o uso que você tá fazendo. Essas construção é que eu acho importante. Uma construção onde você tá usando a sua matéria-prima. Então hoje esse é o desafio da internet. Tá tudo lá. Toda a tecnologia, todos os plugins, todos os recursos tecnológicos, todos os grooves, músicas com pedaços prontos, você pega, junta… É como a vovó que faz bolo. A receita tá lá, você faz e fica uma merda. Outra pessoa faz e fica uma merda. Então, a vovó faz e fica maravilhoso, porque aquilo ali tem toda uma vivência, a quantidade que ela coloca de açúcar, o jeito que ela roda a colher de pau três vezes para um lado, três vezes para o outro, sei lá… É isso que eu to falando. A música é assim. A música pop é isso.

Foto: mini studio, por tacoekkel, CC BY-SA 2.0

Be Sociable, Share!

Posts relacionados

1 comentário

  1. maravilhosa entrevista! ‘era da farsa’ é ótima expressão. é isso mesmo, só interessa o consumo, precisamos de um novo modelo de cultura, de outra via para o capitalismo.
    Concordo tb que o papel do artista está mudando. As novas tecnologias abriram novos caminhos , mas tem muita gente perdida.
    abraços
    claudia

Deixe um comentário

Farol Digital

 

Siga o @estrombo

Facebook