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Grandes nomes da música brasileira: entrevista com Mayrton Bahia – Parte 2

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Foto: Guitar Study 1, por fmerenda, CC BY-SA 2.0

Estrombo: Muitas bandas se auto produzem hoje. Qual a vantagem de ter um produtor fora da banda coordenando tudo?

M.B.: Às vezes não é vantagem. Tem bandas que estão tão afinadas com o que elas têm a dizer que pode ser até que o produtor atrapalhe. A vantagem é quando você encontra um produtor que condiz com o perfil que a banda quer trabalhar, com aquilo que a banda é. Se o produtor é experiente, ele sempre tem o que acrescentar naquilo que a banda quer fazer. Continua tendo muito campo pra produtor porque porque tem muita banda, tem muita gente fazendo música hoje. Se você é um produtor com experiência, vai economizar tempo dessas pessoas e vai poupá-los de uma série de tentativas e erros. Eles vão economizar dinheiro, tempo e os caras vão gastar mais energia naquilo que é mais eficaz.

Estrombo: Qual o melhor caminho para a banda escolher um produtor?

M.B.: Procura olhar o que o produtor já fez, vê se rola uma identificação com os trabalhos que ele realizou. Eu acho que a parte mais importante de uma produção é a pré-produção. Nessa etapa, banda e produtor se conhecem e muitas vezes o próprio produtor pode não querer trabalhar com aquela banda. Na pré-produção, você bota as pessoas pra ensaiar, testa e vê se alguma coisa que você observa tem repercussão na banda ou se há alguma coisa você acha que precisa mudar e se a banda tem a capacidade de fazer essa mudança. Por exemplo, tem produtor que às vezes quer mudar uma coisa na banda e chama outro músico – ignora a banda. Eu não trabalho assim. Ou eu trabalho com a banda como ela é e, dentro daquilo que ela é, acrescento e potencializo alguma coisa ou prefiro não fazer. Simplificando: seu som é sujo e você só conhece três acordes. O que você tá dizendo precisa de mais do que isso? O seu discurso, a maneira como você se apresenta no palco, como você se expressa, precisa de uma elaboração maior do que essa? Não precisa, tá condizente? Então vamos fazer. Agora é claro que, ao longo do tempo, essas pessoas vão evoluindo no sentido de pegar mais técnica no instrumento, de conseguir lidar com a mídia, que é uma outra escola. A gente não tem faculdade de artista, a pessoa aprende no tapa.

Estrombo: Nesse sentido, as gravadoras davam uma espécie de assessoria que hoje talvez não tenha mais?

M.B.: Total. Não tem mais. As gravadoras eram essa faculdade. E a gente convivia com os artistas o tempo todo. Eu ia no show, conversava. Existia uma construção de conhecimento fonográfico muito grande nessa sociedade que vivia dentro da gravadora. E a troca de informação era muito intensa. Por exemplo, na Odeon eu tinha três estúdios. Eu estava com o samba da Clara Nunes num estúdio, com 14 Bis no outro e com música popular no terceiro. Você podia ter, de repente, Nana Caymmi encontrando com Reginaldo Rossi, encontrando com Flávio Venturini. Legião encontrou com 14 Bis e fez uma música pra eles. A Nana encontrava com o pessoal do Clube da Esquina. Eu produzindo Elis Regina, tava o Lô Borges gravando no outro estúdio, fizemos uma música com o Lô Borges participando. Então era uma coisa muito intensa, muito viva.

Estrombo: É mais difícil vermos surgir hoje um grande astro da música brasileira?

M.B.: Eu acho mais difícil sim. Agora, não quero dizer que não vá acontecer. Acho que nós ainda estamos numa margem de transição muito grande. Ainda tá um pouco cedo pra gente poder concluir sobre isso. Antes, havia todo um incentivo. A gravadora deixava de pagar uma grana de ICM pra investir em produção nacional. Depois, quando começou a abertura política, a ditadura foi ficando mais branda, nós entramos na era do entretenimento. Então, as gravadoras falavam assim: “nós não somos uma empresa de cultura; nós somos uma empresa de entretenimento. Nosso negócio aqui não é fazer música cabeça. Já brigamos com censura, a música é pra entretenimento”. E começaram a investir pesado em música pra divertir, pra dançar, mais leves. Isso durou pouco e, logo em seguida, nos anos 90, a gente entrou na era do marketing. As gravadoras diziam: “nós não somos empresas de disco, nem de música. Nós somos empresas de marketing”. Não só as gravadoras, né? O marketing deu uma bombada em todas as áreas, o mundo ficou capitalista ao extremo, todo mundo correndo atrás do dinheiro… Não se preocupava. muito com a identidade do artista e com o que ele tinha pra dizer, mas como deve ser dito. E já é uma conclusão minha que, do meio dos anos 90 pra cá, início dos anos 2000, nós saímos da era do marketing e entramos na era da farsa. Acho que hoje a gente vive na era da farsa mesmo, descaradamente.

Estrombo: E como isso aparece na música?

M.B.: Por exemplo, quando assisto alguns programas musicais na televisão. Tem algumas coisas muito boas, mas a pessoas estão muito mais preocupadas com a sua performance, com a sua imagem, do que com o próprio conteúdo das músicas. Vejo músicas fantásticas que, ao invés de serem potencializadas, são destruídas. A música tá servindo apenas como um degrau pro artista. A pose tá ganhando muito mais relevância do que o conteúdo. É claro que ainda tem alguns artistas que cantam uma coisa porque têm necessidade de dizer aquilo. Pra mim, isso é a base pra gente formar aqueles grandes nomes que a gente vê aqui.

Estrombo: Mas a construção da performance sempre teve um peso importante em uma carreira.

M.B.: As pessoas estão jogando muito pra plateia e também jogavam há um tempo atrás. Só que havia o que se dizer e se expunham muito para isso. A Cássia Eller, por exemplo, era uma pessoa extremamente tímida. Ela não falava muito sobre ela, jogava o cabelo no rosto, mas quando subia no palco ela se expunha totalmente. Ela precisava do palco pra gritar esse tipo de coisa pra todo mundo. É isso que eu sinto falta hoje. Eu sinto falta dessa coragem das pessoas chegarem publicamente e mostrar aquilo que elas realmente são. Isso pra mim é a matéria-prima pra você ter esses grandes artistas. Então por isso que eu digo que tá cedo. Nós estamos ainda nesse deslumbramento de que tudo o que você mostra, é; tudo o que você apresenta, é. Acho que vai chegar um momento que as pessoas vão ficar com o saco cheio disso. Acho que vai chegar num momento em que as pessoas vão ter a necessidade de mostrar o que elas realmente são. Acho que a gente tá vivendo uma época em que isso tá muito complicado com a mídia. Eu sinto que muitos artistas dão mais prioridade à embalagem. Eles vão lá, fazem aquele mise en scène todo e você não sabe quem são elas. Elas não colocam pedaços delas no que elas tão cantando, na maneira que elas tão cantando. É isso que eu sinto falta.

Foto: Guitar Study 1, por fmerenda, CC BY-SA 2.0

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