Blog

Grandes nomes da música brasileira: entrevista com Mayrton Bahia – Parte 1

Be Sociable, Share!

Foto: Vinyl Heaven, por realsmiley, CC BY 2.0

Em mais de 30 anos na indústria fonográfica, Mayrton Bahia ajudou a construir a história da nossa música. Começou como técnico de som na gravadora Odeon e, assumindo o cargo de produtor musical, trabalhou com 14 Bis, Elis Regina, Legião Urbana, Ivan Lins, Wagner Tiso e navegou por diferentes estilos e personalidades. Na mesma empresa, foi gerente de produção e cuidou de um casting que, no auge do Brock anos 80, tinha Plebe Rude, Paralamas do Sucesso e Blitz, entre muitos outros.

Nos anos 90, recebeu carta branca do presidente da Polygram ao ser contratado como diretor artístico da gravadora. E lá, diz que conheceu o Brasil com a música sertaneja, através da dupla Chitãozinho e Xororó. Como o boa parte do seu elenco era popular e vendia bastante, pôde fazer apostas arriscadas ao lançar no mercado a cantora Cássia Eller e os irmãos Sandy & Junior.

Ligado em tecnologia, antes da sair da Polygram percebeu os desafios que a indústria fonográfica enfrentaria quando a Phillips vendeu a gravadora e lançou o CD gravável no mercado. Em 1993, criou o selo Radical Records, pois queria lançar tudo aquilo que as gravadoras não abraçavam, como o Rap e o Punk Rock, mesmo tendo algum tempo depois aberto para o pop rock nacional.

Conversando com o Estrombo, o produtor, que em 1999 criou o curso de Produção Fonográficada Universidade Estácio de Sá, enfatiza a importância de descobrir a identidade do artista, a matéria-prima sobre a qual os novos profissionais devem trabalhar. Confira a primeira parte da entrevista a seguir.

Estrombo: Afinal, o que é produção musical?

Mayrton Bahia: Grosso modo, o produtor musical é como se fosse aquele diretor de cinema. É o cara que fica responsável por tudo que está ligado à produção do fonograma. Não a produção fisica, mas o conteúdo musical. Então, ele dirige o cantor no estúdio, participa da escolha do repertório… Ele dirige o técnico que tá gravando, o engenheiro de som… Essas funções eram realizadas pelos diretores artisticos, que, desde os anos 90, com as mudanças nas gravadoras, virou mais um cara ligado ao faturamento direto da empresa. Ele era o grande visionário da gravadora, aquele cara que via o artista, vislumbrava uma carreira e decidia o repertório junto com ele. Essas funções se deslocaram para o produtor musical.

Estrombo: Qual seria a diferença entre o produtor musical e o produtor executivo?

M.B.: Essas nomenclaturas que também causam muita confusão. Tem muitos discos que você pega e está assim: “produzido por”. Quando está “produzido por”, é porque esse cara fez a produção musical e a produção executiva. A produção musical, em princípio, está mais ligada à parte artística, musical em si. E a executiva é o pagamento dos músicos, o orçamento, o cronograma da gravação, aluguel de equipamento, aluguel de estúdio. Toda a gestão econômica seria a produção executiva.

Estrombo: E você assumia as duas funções?

M.B.: Na minha vida toda, eu só fiz um disco que tinha produtor executivo – e odiei. Odiei o cara tentando me regular ali, dizendo o que eu posso e o que eu não posso fazer. Eu faço tudo. Tem que ter um plano de gravação, um organograma. Aí você coloca as semanas que vai gravar, o que vai gravar, quanto custa, pega a aprovação da gravadora. E você trabalha diretamente ligado ao diretor artístico, pois é ele que te contrata. Quando eu comecei nos anos 70, as gravadoras tinham produtores musicais contratados, mas isso acabou. Hoje, tem o diretor artístico que é um cara que cuida do casting da gravadora. E esse diretor artístico é o que contrata os produtores musical e executivo. E hoje é freelancer, todo mundo é produtor musical independente.

Estrombo: Você diria que é essa é uma das principais mudanças na produção musical dos anos 70 e 80 pra hoje?

M.B.: Sem dúvida. Quando eu entrei, já tinha produtor musical freelancer – embora eu tenha trabalhado muito tempo como produtor contratado, pegando samba, rock, MPB… Eu ficava 24 horas no estúdio. Mas a grande mudança foi o deslocamento da ação do diretor artístico. Eles eram as figuras-chave das gravadoras. Eram os caras que davam o a concepção artística da gravadora, a sua identidade. Eles eram os descobridores de talento e que cuidavam de todo o repertório, parte fundamental de qualquer carreira artística. Nesse período, as gravadoras arriscavam. Você podia pegar artistas sem ter certeza que ia vender. E as carreiras de grandes artistas que nós temos hoje foram criadas nessa concepção. As gravadoras “cresciam” o cara no estúdio. Não havia aquela pressão louca de venda. Até porque eles tinham o casting artístico de venda, com produtos mais comerciais. Hoje as gravadoras só pensam no mercado. Não existe mais esse investimento a médio, longo prazo. Eles querem resultado imediato.

Estrombo: Não é mais aquela aposta que vai desde o início.

M.B.: Nos anos 90, quando eu saí, já essa sentia dificuldade, pra onde a gente estava caminhando. Mas por outro lado, cabe hoje aos selos independentes essa pesquisa, esse investimento, o laboratório do artista. Lá, você vai desenvolver um perfil do artista, a personalidade dele…

Estrombo: Então, esse é um dos principais papeis dos selos independentes hoje?

M.B.: O que acontece: é muito difícil você desenvolver uma carreira já lançando doze músicas. Se o perfil do artista ainda não está desenvolvido, maduro, tem o risco de queimar. Antigamente, esse laboratório envolvia o single. Você lançava duas músicas e elas nem sempre aconteciam. Então, no início da carreira, você não vende o artista, você vende a música. Esse era o investimento a longo prazo. Quem é esse artista? Qual é o tipo de música onde ele vai se expressar melhor? Que tipo de arranjo, que tipo de sonoridade vai ser mais adequada pro que ele tem a dizer? Será que esse cara realmente tem alguma coisa a dizer ou ele é só um produto da mídia? Tinha essa separação: aquele que era o cara do mercado imediato, que está ali apenas pra suprir o que o mercado já quer; mas tem aquele que tem uma necessidade maior de se expressar. Que só consegue, de repente, dizer o que ele realmente quer dizer, em determinado estilo de música, com determinado tipo de sonoridade. São artistas complicadíssimos e foram sempre os que eu preferi trabalhar. Eu sempre escolhi os mais complicados. Na época eu me identificava mais com isso. Então com esses artistas, você lança uma, duas músicas, às vezes não dava certo. E ia assim até descobrir qual era a identidade dele. Sua identidade sonora mesmo, musical.

Estrombo: Mas sempre lidando com o mercado, né?

M.B.: Sim, claro. Mas tinha mais tempo pra chegar no mercado. Você tinha tempo pra errar, experimentar. Nesses singles, às vezes o cara acertava uma música, depois outra, aí fazíamos um LP com as músicas que ele acertou. Depois, um segundo LP. Pra você investir num artista novo, tem que estar preparado para ter um prejuízo durante quatro, cinco anos. Você precisa buscar uma identidade, por mais construída que ela seja. Você vai construir baseado numa matéria-prima que existe. Como que eu vou transformar isso, viabilizar isso da maneira mais autêntica possível? São trabalhos complicados.

Estrombo: E quando o artista começa a vender?

M.B.: Chega no momento em que o público não está comprando mais a música, mas sim o artista. Quando chega nesse crossover da carreira deles, o cara começa a virar um grande artista. E todos aqueles discos que deram prejuízo na carreira dele começam a vender também. O cara morre e continua tocando no rádio, continua vendendo. Isso não tem mais nas gravadoras. Agora, os selos independentes estão aí pra isso, pra fazer esse laboratório.

Foto: Vinyl Heaven, por realsmiley, CC BY 2.0

Be Sociable, Share!

Posts relacionados

Deixe um comentário

Farol Digital

 

Siga o @estrombo

Facebook