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Novos hábitos de consumo musical e a “Jukebox Celestial”

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Jukebox Celestial

A Jukebox Celestial é uma metáfora para a música na nuvem, expressão que vem sendo bastante utilizada atualmente. O termo traduz a ideia de um grande acervo de músicas que pode ser acessado de qualquer lugar, por qualquer meio digital. Se antes isso era apenas um sonho, hoje já é realidade concreta: lojas virtuais e serviços de streaming confirmam que a Jukebox Celestial já acontece. Apesar da novidade incorporar novos hábitos de consumo musical, existem diversos pontos que ainda precisam ser questionados. Em 2006, os autores Patrick Burkart e Tom McCourt levantaram alguns desses problemas no livro “Ownership and control of the Celestial Jukebox” (“Propriedade e controle da Jokebox Celestial”, sem edição no Brasil).

Primeiro, é preciso destacar que duas tecnologias principais constituem a espinha dorsal da Jukebox Celestial: o Customer Relationship Management (CRM) e o Digital Rights Management (DRM). O CRM, bastante utilizado no marketing, analisa perfis dos usuários para direcionar/recomendar conteúdo e gerar relatórios com o objetivo de aprimorar estratégias de mercado. Já o DRM exige que o consumidor acesse o conteúdo exclusivamente nos termos do fornecedor, aceitando e “assinando” acordos de licenciamento, termos de serviço, entre outros.

A crítica principal dos autores é que essas tecnologias se combinam para ampliar o oligopólio da distribuição de conteúdo no ambiente online, “estabelecendo novos limites para a propriedade intelectual, novas restrições de acesso e uso, e novas ameaças à privacidade individual”.

As companhias dominantes no mercado, ao terem seu status ameaçado com o desenvolvimento de novas tecnologias, precisam combater ou incorporá-las em seu modo de produção – do contrário, estarão arruinadas. No caso da música, o mp3 e as redes peer-to-peer (p2p) são os principais exemplos de agentes confrontadores que abalaram modelos de negócios mais tradicionais. As gravadoras lidaram com esse obstáculo de diversas maneiras, até mesmo abrindo processos contra usuários e programas. Outras estratégias e táticas foram empregadas na luta contra o p2p, como a publicação na rede de arquivos de mp3 defeituosos que só tocavam um trecho da música repetidamente, ou apresentavam ruídos ao longo da execução. Por um lado, a Jukebox Celestial é uma tentativa de criar canais legítimos para o consumo de música na internet. Por outro, é uma tentativa da indústria de controlar a sua audiência online.

Segundo os autores, “o CRM é baseado em sistemas de personalização, cujo objetivo é solidificar a lealdade do consumidor ao criar uma ‘experiência’ online ajustada às suas preferências”. É claro que existe uma falha grande aí: os gostos não são objetivos e, por isso, não podem ser matematizados. Nossas preferências são fluidas e o fato de gostar de tal banda, não necessariamente indica que gostaríamos de outra pertencente ao mesmo gênero, por exemplo. Sobre os sistemas de filtros, falamos anteriormente aqui no blog.

Metadados, controle e acesso aos bens culturais

De toda forma, a base da Jukebox Celestial é o DRM. Afinal, se a indústria do entretenimento quer comercializar no ambiente online, ela precisa conseguir restringir os usos e acesso aos produtos. O problema é que os direitos do consumidor nem sempre são considerados nessas tecnologias. Existem três modelos principais de tecnologias DRM:

  • Acesso ao conteúdo através de senhas, códigos e chaves;
  • Desenvolvimento de algoritmos para marcas d’água ou etiquetas eletrônicas que são inseridas diretamente nos arquivos;
  • Restrição de usos: gravar, copiar, colar, imprimir ou limitar essas funções a um só computador.

Assim, Burkart e McCourt apontam que o DRM é desastroso para os consumidores. Por exemplo, restringir o acesso para inscritos, só impede que mais pessoas entrem em contato com o produto e tenham vontade de comprá-lo.

Como argumento final, os autores destacam que a Jukebox Celestial é o resultado de anos de pesquisa corporativa que favorece os interesses das empresas sobre os dos cidadãos. As tecnologias de CRM e DRM nos sujeita a constante vigilância e manipulação, onde agentes online demandam informações pessoais e empurram propaganda; nossa propriedade e privacidade são expostas. A Jukebox Celestial nega o uso justo a cidadãos, conhecimento técnico e liberdade de expressão a pesquisadores, e liberdade criativa para artistas.

Essa reflexão pondera o outro lado da euforia por trás dos novos serviços de música na nuvem e lojas online que começam também a chegar ao Brasil. Apesar da necessidade e urgência de criarmos novos negócios para a música, estamos mesmo dispostos a abrir mão da nossa privacidade para participarmos disso?

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1 comentário

  1. [...] Celulares, tablets e players de mp3 conectados à internet são apenas alguns exemplos de dispositivos que têm estimulado a criação de novos negócios em música. Toda uma geração de consumidores passou a ter seus hábitos de escuta formados através de aplicativos e downloads em lojas virtuais integradas aos aparelhos. Apesar da propaganda promissora, pesquisadores de diferentes áreas já apontaram a necessidade de se refletir sobre o que abrimos mão nos novos modelos de consumo musical. Será que vale a pena ter a nossa privacidade invadida e monitorada para uso comercial de uma indús…? [...]

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