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No Overmundo: “Cooperação criativa”, pelo músico Makely Ka

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No Overmundo, Makely Ka, compositor e presidente da COMUM – Cooperativa de Música de Minas, publicou um artigo sobre o movimento cooperativista musical, uma tentativa de sistematizar o que é natural e orgânico nas trajetórias musicais de diversos artistas, profissionais e empreendedores da música.

O impacto da tecnologia na cadeia produtiva da música criou oportunidades para que movimentos locais fossem melhor organizados. Se antes, duas cabeças pensavam melhor do que uma, hoje, muitas cabeças fazem suas próprias revoluções. E uma delas está na retomada do lema do punk “faça você mesmo”. Assim, um grupo de pessoas, se bem articuladas, podem criar seus próprios sistemas na cadeia produtiva da música, estimulando a produção dos músicos e levando essa produção para o público. Outros profissionais de outras áreas também podem se juntar, agregando complexidade a essas formações.

O ponto a perceber é que as tecnologias digitas criaram um problema para música, mas somente dependendo de onde se vê; olhando por outro lado, vemos que, apesar das dificuldades, há bem mais possibilidades de criação e intervenção na cultura. Confira o texto abaixo e mande seus comentários.

Cooperação Criativa

Por Makely Ka

O movimento cooperativista musical é uma filosofia que surgiu da prática e reflexão a partir do ativismo dos autoprodutores no sistema contra-industrial.

As cooperativas de música dilatam o conceito de cooperativismo não só no campo da sustentabilidade e dos novos modelos de negócio, mas também, e principalmente, nas esferas da economia criativa, da comunicação em rede e da representatividade coletiva. Mais do que isso, deslocam o foco da produção para a criação, mudando o perfil clássico do cooperativismo baseado nas cooperativas de trabalho para as cooperativas de criação, estendendo os princípios do cooperativismo para um sentindo amplo de cultura.

Isso porque células criativas da música se apropriaram dos ideais do cooperativismo e o adequaram às suas necessidades e desejos, assim como às novas demandas, vislumbres e possibilidades da tecnologia.

A música é um dos setores da indústria que mais sofreu o impacto das novas tecnologias e seus criadores foram dos primeiros a apresentar alternativas viáveis para a conversão do aparato tecnológico em ferramenta ativa na revolução de costumes, usos e hábitos pelos quais passamos. Vírus transformador ao invés de panacéia futurista, a apropriação das tecnologias inovadoras assumiu um caráter subversivo capaz de desestabilizar conceitos enraizados no modo de produção, consumo e fruição de cultura herdados da revolução industrial, do fordismo, do copyright e do próprio conceito iluminista de criação. Diante de um monolito de dúvidas a única certeza possível é a experimentação, a busca de alternativas inusitadas, emboram muitas vezes simples e rarefeitas como nuvens.

Nesse contexto de transformações estruturais é natural a renovação conceitual. Contra industria surge como um meme pós-industrial num momento de esgarçamento de conceitos como independente, indie, alternativo, marginal.

O autoprodutor é o não-especialista por definição. Ele compõe, produz, divulga, distribui e consome, não necessariamente nessa ordem. A necessidade premente em desatar tantos nós quanto possíveis da ‘cadeia’ fizeram dele um profissional genérico que levou às últimas conseqüências a máxima anarquista “faça-você-mesmo”! O autoprodutor portanto é o operário da contra-indústria que encontrou no cooperativismo a força coletiva para instaurar uma nova realidade. A negatividade implícita no termo significa menos a transformação vertiginosa dos aspectos técnico-formais do que a recusa do modelo consolidado de divisão do trabalho e atribuição de tarefas no sistema de produção em escala industrial. Essa é a principal mudança paradigmática que trás a reboque todas as outras.

O cooperativismo encontra nessa contra-indústria um novo modelo de divisão de trabalho sem no entanto abrir mão dos avanços tecnológicos e das conquistas e soluções encontradas pela própria indústria. Essa nova divisão do trabalho se estrutura em redes colaborativas onde a gestão das atividades é individual, orgânica e ao mesmo tempo coletiva. Contra-indústria é, no plano sintático, um oxímoro, e essa contradição perdura até o momento em que se percebe que ela se constitui como uma síntese dialética da revolução industrial. A idéia de redes e de rizoma aqui torna-se fundamental para compreender a forma como se dá o processo de produção contra-industrial.

Nada como uma crise para alimentar a imaginação, aproximar opostos em busca de saídas comuns e alimentar a colônia para que seja possível proliferar o germe da solidariedade. Um dos germes são os Bancos de Serviços, com código genético herdado dos Bancos de Horas e utilizando a unidade hora/aula – princípio pedagógico-social – fomentando a troca de serviços, saberes e experiências e buscando a auto-sustentabilidade para as atividades promovidas pelos cooperados.

Além de viabilizar uma forma inovadora e pioneira de gestão coletiva das carreiras baseada na economia solidária e no comércio justo e auto-sustentável, as cooperativas de música ocupam uma lacuna gigantesca na organização e representação política do setor musical, utilizando elementos da democracia experimental, do cyberativismo e da comunicação em redes para mobilizar o setor e estabelecer interlocução com governos e instituições.

Subvertendo o pragmatismo mercantilista que reduziu empresas jurídicas a emissores de nota fiscal, alimentando um mercado paralelo na sombra da legalidade, as cooperativas de música elevam também a outro patamar a discussão acerca de questões trabalhistas e previdenciárias, no âmbito da regulamentação profissional e dos encargos tributários bem como as questões educacionais, valorizando a troca de informação desierarquizada e o reconhecimento de saberes intuitivos.

O grande desafio das cooperativas de música agora é integrar todos os estados numa rede rizomática capaz de dar vazão a essa produção latente, criando circuitos para o fluxo de artistas, pesquisadores, técnicos, pensadores, jornalistas e produtos. Essa plataforma aponta para a consolidação de uma grande malha formada por todas as cooperativas de cultura, dando outra dimensão para o cooperativismo e inaugurando um novo momento no modo de fazer e consumir cultura no país.

Makely Ka é compositor e presidente da COMUM – Cooperativa de Música de Minas

[Fonte: Overmundo]

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2 comentários

  1. Olá pessoal do Estrombo!
    Grato pela replicação do artigo. Um detalhe, o link para o site da COMUM agora é o seguinte: http://www.portalcomum.com.br
    Abraços

    1. Oi Makely,

      obrigado por avisar do link. Vamos substituir.

      Abraço,
      Equipe Estrombo

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