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Série de artigos na The Wire discute música compartilhada

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A “The Wire”, conceituada revista inglesa sobre música independente, começou em maio uma série de artigos de opinião chamada “Collateral Damage” para discutir as consequências do compartilhamento de músicas. E as perspectivas são bem variadas.

O texto que deu origem à série é o “Epifanias”, de Kenneth Goldsmith, fundador da UbuWeb, site inovador fundado em 1996 que distribui obras de vanguarda. Problematizando o compartilhamento de arquivos, Kenneth argumenta sobre o Napster que, pela primeira vez, foi possível ver o quão eclético é o gosto musical dos usuários disseminadores de música nas redes, onde uma mesma pessoa possui coleções de músicas tão díspares quanto possível. Outro ponto levantado é o consumo do single em detrimento do álbum, pois não precisamos mais comprar o disco inteiro para escutar uma ou outra música – e, eventualmente, também não precisamos pagar por essas poucas faixas. Com o armazenamento em HDs e dispositivos portáteis como o celular ou o mp3 player, perde-se também os “objetos de fetiches”, como o LP ou o CD, que ficam e
mpoeirados nas prateleiras. Por fim, o autor comenta que o compartilhamento de arquivos em massa, parece ser muito mais sobre “quantidade”, pois o ato da “caça”, da busca de músicas, parece ter mais importância do que a própria música.

Em resposta a Kenneth Goldsmith, Chris Cutler, fundador da banda Henry Cow e diretor da gravadora ReR, lembra que “ações geram consequências”, pois “o ‘de graça’, sempre tem um ‘preço’”. Nessa direção, Chris reflete sobre os desdobramentos do compartilhamento de arquivos. Segundo seu artigo, fazer um álbum custa caro e esse dinheiro só seria recuperado através da venda. Essa questão é preocupante, principalmente para as pequenas gravadoras e bandas independentes, que promovem a diversidade e criatividade fonográfica justamente por estarem fora do mainstream. Sendo assim, o download e o upload indiscriminados podem tirar essas bandas e empresas do circuito.

Já David Keenan, da loja Volcanic Disco, argumenta que “a pirataria digital trata músicos, gravadoras e lojas de disco como se eles fossem servidores públicos. Isso é desrespeitoso”. Segundo ele, o compartilhamento de arquivos endossa um engajamento superficial com a cultura, pois não importa mais a profundidade da interação entre o indivíduo e uma obra de arte.

Em outro ponto de vista, o músico Bob Ostertag conta como ter liberado suas músicas gratuitamente em seu site foi vantajoso para sua carreira. As vendas de suas gravações nunca foram bastante expressivas e os royalties nem sempre chegavam a ele. Agora, mais pessoas ouvem sua música. Como uma contrapartida, ele pede doações em seu site, mas não obriga os usuários a pagarem. Outro ponto importante é que o músico descobriu que o público ainda quer comprar CDs em shows, onde a venda do disco está atrelada à experiência do show ao vivo.

Amanda Brown, sócia do selo independente Not Not Fun, defende que o som executado no computador parece “clínico”, desconectado do “calor” do LP, por exemplo, que é um aspecto crucial da questão “música-enquanto-arte”. Segundo ela, parece que nesse cenário são os computadores que fazem a música, sem o elemento humano em nenhum lugar da cadeia de criação. Portanto, escutar música no computador resultaria numa experiência estética menor. Amanda ainda reflete que quando álbuns são trocados por uma ou duas músicas-chave, quando a música é reduzida a status de “lixo eletrônico”, quando discografias inteiras são rapidamente consumidas e dispensadas, “o quão profundo será o entendimento e apreciação dessas criações”? Sobre o acesso gratuito às músicas, Amanda também preocupa-se com o mercado underground. Segundo ela, esse grupo de artistas precisa receber por sua produção, justamente porque isso é o que possibilita essas bandas manterem sua criação fora do mainstream.

Essa é uma discussão bastante complexa, que envolve uma série de fatores e, portanto, pluraliza os pontos de vista.

Como você se posiciona nessa debate?

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