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O novo projeto de Björk e a formação de uma nova espécie de compositores

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No Globo: “Projetos como ‘Biophilia’, de Björk, apontam para a formação de uma nova espécie de compositores”

Por Eduardo Almeida

RIO – “Biophilia”, o novo disco da inquieta Björk, nasceu como uma casa musical interativa, virou filme 3D e acabou se tornando um aplicativo para iPad com o ousado objetivo de criar uma experiência que une natureza, música e tecnologia. O projeto é mais um a se afastar do conceito tradicional de álbum, consagrado na segunda metade do século XX, mas em crise nesses tempos de mp3, iPods e torrents.

A ideia original, nascida das reflexões da artista em relação ao modo como tratamos o mundo em que vivemos, era criar uma casa onde cada cômodo representasse uma faixa do disco, com uma experiência imersiva única que ilustrasse a ligação entre música e natureza.

O projeto logo se mostrou inviável e a cantora saiu em busca de alternativas, encontrando no iPad a plataforma ideal para expressar suas ideias. Em entrevista ao site “Quietus” , ela conta que começou a mexer com telas sensíveis ao toque durante a turnê de “Volta”, seu disco de 2007. Ali surgiu o desejo de utilizar essa tecnologia para criar música, não apenas ouvir ou tocar.

Um gostinho da estética do aplicativo pode ser provado no site de Björk, onde um vídeo narrado por David Attenborough explica o projeto. Mas para aproveitar a experiência completa é preciso ter um iPad, o que gerou críticas por conta da escolha de uma plataforma fechada e cara. Arcade Fire e OK Go, por exemplo, também lançaram projetos baseados em novas tecnologias, mas escolheram o navegador Chrome, gratuito e disponível para qualquer computador, como plataforma. Björk pelo menos já disse que conta com os hackers para quebrar o sistema e abri-lo para todo mundo.

Criado em parceria com o programador e engenheiro Damian Taylor, “Biophilia” é visualmente estimulante. O usuário navega por uma galáxia 3D que gira com os toques no iPad. As estrelas abrem o universo de cada uma das canções, recheadas de elementos interativos. Estão lá animações, partitura da música, letra e outras surpresas.

Por enquanto é possível explorar as propriedades dos cristais ao som do primeiro single, “Crystalline”, que ganhou clipe do velho parceiro de Björk, Michel Gondry. Conforme as novas músicas forem liberadas, novos mini-aplicativos surgirão. Num deles será preciso enfrentar uma infecção viral – a música pára quando você mata o vírus, portanto só ouvirá a canção inteira quem deixar a célula morrer. Em outro, a replicação do DNA será usada para ilustrar o ritmo e arranjo de uma canção.

Na entrevista para a “Quietus”, Björk também chama atenção para uma mudança de mentalidade que considera importante. Ela aponta para o compositor do século XXI como uma nova espécie, muito diferente do artista auto-indulgente da era de ouro das gravadoras.

Desde que o Napster deu início ao ocaso da indústria fonográfica, no ano 2000, vários artistas buscaram formas alternativas de lançar seu trabalho, fugindo não só do formato “disco” consagrado pelos LPs e mantido pelos CDs, como também do próprio conceito de álbum, no que muitos apostam ser uma volta aos singles, mas ninguém na verdade sabe direito no que vai dar.

Aqui no Brasil nós tivemos a briga de Lobão com as gravadoras pela numeração dos discos e a iniciativa de lançar álbuns em revistas. Além disso, no mundo todo o número de artistas que disponilbizam suas músicas gratuitamente na internet cresce a cada dia. Abaixo, relembramos alguns casos de estratégias alternativas de lançamento de discos. Alguma delas se tornará o padrão no futuro? Ainda não dá para dizer.

PEARL JAM: Em 2000, no início da revolução digital, o Pearl Jam resolveu levar a frente um plano que batia de frente com as estratégias da indústria. A banda gravou os shows da turnê “Binaural” e lançou todos como discos, garantindo qualidade de som para os bons e velhos colecionadores de “bootlegs”. Foram 72 álbuns ao vivo lançados entre 2000 e 2001, que renderam à banda o recorde de mais discos a estrear ao mesmo tempo na Billboard 200, sete dos 23 da primeira perna da turnê americana em 2001.

LOBÃO: Em 1999 ele rompeu com a gravadora e lançou o álbum “Vida Doce” em bancas de jornais. Quatro anos depois lançou a revista “OutraCoisa”, que trazia encartados discos de novos nomes da música brasileira. A primeira edição teve o disco solo de estreia de BNegão (ex-Planet Hemp), “Enxugando Gelo”. Também passaram por lá Mombojó, Cachorro Grande, Skylab, Instituto, Carbona, Canastra… muita gente boa.

RADIOHEAD: Em 2003 a banda completou seu contrato de seis álbuns com a EMI, com o lançamento de “Hail to the thief”. Ao terminar de gravar seu disco seguinte, “In rainbows”, o grupo precisou decidir como lançá-lo para o público. Acabaram disponbilizando todas as dez músicas em mp3 num arquivo zip que podia ser baixado no site da banda com um detalhe: o comprador pagava quanto quisesse.

As “vendas” começaram no dia 10 de outubro de 2007 e duraram até 10 de dezembro do mesmo ano. Em outubro de 2008, a Warner revelou que a maioria das pessoas não pagou nada pelo disco, mas ainda assim a pré-venda deu mais dinheiro que o total de vendas de “Hail to the thief”.

O disco seguinte do Radiohead, “King of Limbs”, ficou disponível para audição na internet por alguns dias, mas a venda foi mais tradicional. A banda incluiu apenas um jonal nas versões em CD e vinil, brincadeira que o Jethro Tull já havia feito com o disco “Thick as a brick”, em 1972.

WHITE STRIPES: Em 2007 o White Stripes já era uma banda consagrada e se preparava para lançar seu sexto álbum, “Icky thump”. Além do CD e do LP, a banda pôs à venda uma edição limitada de pendrives com 512 MB e o disco incluído. Foram duas versões, nos formatos de bonecos de Jack e Meg, com 3.333 unidades cada. Esse episódio guarda uma lição importante. As músicas no formato digital foram mixadas num volume muito alto, gerando um efeito de distorção que desagradou muitos fãs.

ARCADE FIRE: Em agosto de 2010 a banda lançou um clipe interativo, que se passa no endereço escolhido pelo espectador. A brincadeira só funciona no Google Chrome e usa o Maps para geolocalização. A ideia é que cada pessoa coloque um endereço onde passou a infância para criar o clima da música “We used To wait”.

OK GO: Em 2011 foi a vez dos moderninhos do OK Go brincarem com o Chrome. No caso deles, é claro, uma dança engraçadinha. www.allisnotlo.st/

CAETANO VELOSO: Curioso notar que dois dos mais consagrados medalhões da música brasileira se envolveram em projetos inovadores nos últimos anos. Após o sucesso de “Cê”, em vez de voltar para o estúdio para gravar o disco seguinte, Caetano seguiu nos palcos e montou o novo trabalho em público, nos shows “Obra em progresso”. O resultado foi o álbum “Zii e Zie”, lançado em abril de 2009, mas legal mesmo foi a reaproximação do artista com o público em uma série de shows antológicos.

CHICO BUARQUE: Em 2011 foi a vez de Chico Buarque debutar na internet. Para lançar seu álbum “Chico” ele montou um site onde liberava músicas, cenas de bastidores, dava entrevistas, palinhas de músicas novas etc. Chico dividiu com o mundo sua perplexidade com os trolls, virou meme e descobriu que na internet ninguém é unamidade (no mundo real também não, mas lá as pessoas comuns têm menos voz, né?).

MORE HAZARDS, MORE HEROES: Conhece o More Hazards, More Heroes? Pois não conhece por que não quer. O disco de estreia deles, “The good kind”, está inteirinho na internet. Eles criaram um site bacana que tem até um disquinho que roda enquanto você ouve a música. Tem lá ainda uma minibio (eles são um duo inspirado em “Kings of Convenience com um jeito sulista de Sam Beam e um gostinho de Sufjan Stevens”) e as letras para quem quiser acompanhar. O disco ainda precisa estourar, mas o design do site vem sendo muito elogiado internet afora.

KAISER CHIEFS: O Kaiser Chiefs lançou em junho seu quarto álbum, “The future is medieval”, ousando na busca de novas formas de se vender música na internet. Em vez de oferecer um disco com conteúdo pré-determinado, a banda inglesa oferece 20 canções das quais o internauta pode escolher 10 e montar seu próprio álbum, que poderá ser vendido com parte da renda dividida entre o fã e os músicos.

Para participar do “futuro medieval” dos Kaiser Chiefs, é preciso visitar o site kaiserchiefs.com e escolher as músicas – há uma prévia de cerca de um minuto de cada uma. Depois, basta criar a arte da capa e pagar £ 7,50 (cerca de R$ 20) pelo download, via PayPal. O disco pode então ser compartilhado com outras pessoas e o fã recebe £1 a cada vez que sua versão for vendida.

(Fonte: O Globo Online)

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