Tags

Archive for fevereiro, 2012

Remuneração de autores: analisando novos modelos – Parte 2

Remuneração de autores: analisando novos modelos – Parte 2

No primeiro post da série sobre o livro “Promises to keep – Technology, law and the future of entertainment” – no qual o professor William Fisher (Harvard) propõe um modelo alternativo de remuneração aos autores – abordamos o problema dos “bens públicos”. Estes, por definição, são não-competitivos (o usufruto de uma pessoa não impede que outros os aproveitem) e também não-excludentes (quando alguém tem acesso a eles, é quase impossível negar o acesso também a outras pessoas). Entram nessa categoria: estradas, instrumentos de defesa nacional, invenções e produtos da indústria do entretenimento no ambiente digital. Segundo Fisher, a produção desses bens deve ser parte de políticas governamentais, uma vez que os fornecedores não podem arcar com os custos – e não ter retorno – por algo que será usufruído publicamente.

Fisher expõe cinco modelos possíveis de remuneração governamental aos autores, seus prós e contras, e propõe um sistema alternativo de “recompensa” administrado pelo governo. E é este sistema que abordaremos neste segundo post.

O sistema proposto funcionaria assim: o criador que quisesse coletar receita quando seu filme ou música fosse consumido precisaria efetuar o registro da obra no “Copyright Office”. Esse registro daria um nome único para o arquivo, que seria usado para, através dos metadados, rastrear transmissões de cópias digitais da obra. Através de taxas, o governo coletaria dinheiro suficiente para remunerar o autor por ter disponibilizado seu trabalho livremente para o público. Uma agência governamental ficaria responsável por estimar a quantidade de execuções de cada música. Em seguida, cada autor seria pago periodicamente pela agência uma parte da receita coletada, deduzindo-se os impostos proporcionais à popularidade de sua criação. Uma vez que esse sistema fosse instituído, as leis de direito autoral precisariam ser modificadas, eliminando boa parte das proibições a reproduções, distribuições, adaptações e performances de músicas e vídeos não autorizadas atualmente. Porque, nesse caso, músicas e filmes estariam prontamente disponívels, legal e gratuitamente.

Como funciona, quem ganha, e como ganha

Nesse modelo, consumidores pagariam menos para consumir bens culturais e artistas seriam compensados justamente; mais pessoas e mais produtos estariam disponíveis para o público; músicos seriam menos dependentes de intermediários para a distribuição de seus produtos; mais possibilidades e liberdades legais para usufruir, modificar e distribuir criações.

No capítulo 6, Fisher descreve o sistema com mais detalhes. Etapa a etapa, ele apresenta a mecânica do registro das obras que circulariam por esse modelo, como seriam coletadas as taxas para o governo angariar fundos na implementação do sistema, como se daria redistribuição de valores entre os diversos autores – e como o sistema remuneraria os criadores originais de obras derivadas.

Ainda segundo o autor, em 2003 aproximadamente 35 milhões de cidadãos americanos estavam fazendo download ilegal de músicas. Depois que a RIAA (Recording Industry Association of America) deu início à sua campanha para localizar e processar usuários individualmente, este número caiu vertiginosamente. Mas, até o fim do ano em questão, pelo menos 18 milhões de pessoas continuavam adeptos da prática. É verdade que, por um lado, a campanha conscientizou grande parte da população da ilegalidade desse comportamento. O problema é que, ainda assim, milhões de pessoas continuam fazendo e “muitas pessoas violando a lei não é algo saudável culturalmente”.

Na terceira e última parte do post, as vantagens e desvantagens do sistema de recompensa proposto serão abordadas pontualmente.

Como você, músico, empreendedor cultural ou entusista das novas tecnologias, vê essa possibilidade de remuneração dialogando com a nova realidade da cultura da música?

Acompanhe o Estrombo também nas nossas redes: Twitter, Facebook e YouTube.

Workshop “Engenharia de Produção do Entretenimento”, dia 5

O IATEC (Instituto de Artes e Técnicas em Comunicação) realizará na Barra da Tijuca, dia 05/03, segunda-feira, das 19:00h às 22:00, a palestra “Engenharia de Produção do Entretenimento”.

O colóquio será ministrado pelo Gerente de Operações de Engenharia da TV Globo Fernando Araújo e a entrada será um pacote de fralda geriátrica, que será doado ao Retiro dos Artistas.

Workshop “Engenharia de Produção do Entretenimento”

Fernando Araújo é graduado em Engenharia Eletro-Eletrônica pelas Faculdades Reunidas Prof. Nuno Lisboa em agosto de 1987. Pós-Graduado em Gestão Empresarial pela PUC-Rio em dezembro de 1997. MBA em Comunicação e Marketing pela ESPM-Rio em Janeiro de 2004. Exerce há 10 anos o cargo de Gerente de Operações de Engenharia na Central Globo de Produções na TV Globo, é o responsável pela gestão do departamento de operações de estúdios e eventos, e especialista na produção ao vivo de grandes eventos e programas de auditório.

Engenharia de Produção do Entretenimento

Engenharia de entretenimento é o campo de estudo que se apropria da análise de produção, estabelecendo relações com as atividades econômicas modernas, educação, arte e cultura. Dentro do setor de entretenimento, atua na produção, avaliação e seleção de projetos de produtos do entretenimento, com base em métodos quantitativos da Engenharia de Produção, em teorias, métodos de áreas complementares e inclusive em leis de incentivo.

Fernando Araújo abordará os seguintes tópicos no workshop: a origem e a visão da Engenharia de Produção do Entretenimento; a cultura como negócio no teatro, cinema e televisão; o projeto Trans Mídia; e a visão de futuro e inovação.

Serviço:

Workshop gratuito “Engenharia de Produção do Entretenimento”, do IATEC, na sede do instituto na Barra da Tijuca.

Coordenação: Fernando Araújo

Data: 05 de março de 2012, segunda-feira.

Horário: das 19:00h às 22:00h.

Local do Workshop: IATEC -  Av. Érico Veríssimo, 999 – 3º andar, 302. Barra da Tijuca. Rio de Janeiro, RJ (mapa)

Inscrições/Reservas: Enviar e-mail para atendimento@iatec.com.br com nome, telefone e e-mail.

Ingresso: 1 pacote de fralda geriátrica

Maiores informações: www.iatec.com.br

No Overmundo: “O que significa a originalidade no mundo de hoje?”

Rádio

Por Ronaldo Lemos

O texto abaixo é resultado de uma conversa com o jornalista Bruno Yutaka Saito. Ele trata da questão da “originalidade” e de como ela acontece hoje, em um mundo transformado o tempo todo pela tecnologia. É claro que é um começo de uma conversa que não tem fim, mas ei-lo aqui.

Bruno: É importante ser original na música hoje em dia? A originalidade é superestimada?

Ronaldo Lemos: Vivemos em um momento em que há um culto enorme à originalidade e à inovação. Isso acontece não só na cultura, mas também na ciência, na economia e na sociedade em geral. A ideia de “originalidade” ou “novidade” tem uma função muito peculiar nos nossos tempos: estimular o consumo. O culto à originalidade leva a uma busca cada vez mais acelerada pelo novo. É só pensar em como a moda cresceu em importância global nos últimos 15 anos: os ciclos da moda estão cada vez mais rápidos. A função da moda não é gerar novidades, mas sim fazer com que o novo se torne obsoleto o mais rápido possível. E isso estimula o consumo de forma permanente. Dá para ver isso na música e na cultura de modo geral. A todo momento surgem estilos ou cenas novas, que se tornam populares do dia para noite, e depois ficam fora de moda. É como o consumo cultural tivesse se aproximado da dinâmica da moda.

Bruno: Você acredita que a banda larga/mp3/ipod ao mesmo tempo em que tornaram a música um bem muito mais acessível, ao mesmo tempo transformou-a numa coisa inofensiva, apenas um som ambiente enquanto fazemos tarefas diárias?

RL: A internet e a cultura digital aumentaram enormemente a produção e o acesso à música. O problema não é que a música se tornou inofensiva, ao contrário. Olhando com cuidado, mesmo no pop há músicas mais “perigosas” do que jamais foram feitas. O atirador da Noruega, por exemplo, fez uma “playlist” com artistas segregacionista para estimular outros insanos. No entanto, nossa atenção hoje é difusa demais para prestar atenção em cada detalhe. Mas nem por isso a música deixou de ter impacto social: ela continua essencial na construção de identidades coletivas e também como expressão de contextos e ideias políticas (como a música “gay” que nunca parou de crescer, tem a ver com liberdade e afirmação, e se materializa em festivais e baladas próprias).

Bruno: Em uma entrevista neste ano ao Guardian, Godard disse: “Film is over. It’s sad nobody is really exploring it. But what to do? And anyway, with mobile phones and everything, everyone is now an auteur”. Essa ideia pode ser aplicada à música? A atual cultura do remix (não só na música eletrônica, mas de uma forma geral) e o enorme manancial de arquivos digitais mudaram para melhor a música, democratizando-a?

RL: Essa ideia expressa pelo Godard de que o cinema morreu diz respeito a uma ideia específica de cinema. E mesmo esse cinema não morreu. Ele continua fazendo muito sentido, produzindo obras incríveis. A questão é que ele compete hoje com muitas outras práticas de expressão audiovisual. O que ele vê como “morte” é apenas um deslocamento: o “cânone” ocupa mais um lugar central, ele muda de posição, passa a conviver com outras formas, fica descentralizado. Mas mesmo assim, dentro dessa nova posição, não significa que tenha perdido vigor. Nunca se produziu tantos filmes ou tanta música. Esse momento atual representa também uma explosão de criatividade.

Bruno: Você costuma escrever que a música vibrante atualmente é produzida nas periferias do mundo. Por que isso acontece? Mas, mesmo o tecnobrega: ele realmente é “novo”, uma vez que remete aos anos 80?

RL: A inovação vem cada vez mais das pontas, das margens. Com a música não é diferente. Quanto mais próximo você está do centro mais próximo está também de linguagens, estilos e práticas consolidadas. Claro que dá para ser criativo, mas em geral isso acontece dentro de modelos já conhecidos. Já a música periférica não tem essa preocupação. São cenas vivas e mutantes, que produzem muito e onde há um espaço enorme para o acidente, a precariedade e o acaso. Não precisam “passar recibo” para nenhuma estética mais estabelecida. Quando isso é conjugado com a internet e a tecnologia digital, há uma explosão global. Cenas se fortalecem e outras aparecem em todo lugar, como a champeta na Colômbia, a cumbia villera na Argentina, o bubllin na Holanda e no Suriname, o kuduro em Angola, o shaghaan electro na Africa do Sul e assim por diante. No Brasil, há o tecnobrega, o funk, a pisadinha, o lambadão cuiabano,o forró eletrônico só para dar alguns exemplos. São músicas superpopulares, que falam para milhões de pessoas e dialogam entre si sem passar pelo “centro”, que torce o nariz para o fato de serem abusadas e nada respeitosas com o “cânone” do bom gostousual. De tempos em tempos, períodos de reinvenção macontece também no centro, como nos anos do pós-punk e 79 a 81, ou na primeira geração das raves de 89 a 92. Só que nas pontas esse processo é permanente.

Fonte: Overmundo

Curadoria de blogs e filtros na crítica musical: como funciona?

Hype Machine | Zeitgeist 2011

Na rede, existem milhões de sites e blogs sobre música. Com ferramentas de publicação disponíveis gratuitamente, é usual pessoas extravasarem seu lado crítico usando o teclado para expressar suas opiniões sobre músicas, álbuns e bandas. A facilidade de encontrar na internet dados, fotos, vídeos e streaming de música torna esse trabalho ainda mais complexo e eficiente. Assim, a pluralidade de vozes críticas aumenta exponencialmente, informando sobre e criticando música sob diferentes pontos de vista.

Mas o que fazer com essa informação toda?

Ao mesmo tempo que é importante perceber a pluralidade de vozes no ambiente online, é cada vez mais difícil dar conta de todas fontes e absorver tudo o que é apresentado e discutido. Assim, é preciso recorrer a filtros para organizar o fluxo de informações na rede.

Existem dois sites, entre outros, que fazem esse trabalho, cada um à sua maneira: o Hype Machine e o Shuffler.fm. Ambos “coletam” músicas publicadas nos mais diversos blogs e destrincham e categorizam a informação para o ouvinte.

No caso do Hype Machine, as faixas curadas nos blogs são separadas em seções como latest (publicações mais recentes), popular (artistas, buscas e blogs mais populares no momento) e zeitgeist (os 50 melhores artistas, álbuns e músicas do ano anterior), entre outras.

Já o Shuffler.fm se define como “uma revista feita por blogs de música”. Ele usa o critério de gênero musical para separar as faixas publicadas pelos blogueiros. Assim, o usuário pode escolher que tipo de som ouvir: indie, pop, female vocalists, hip hop, dubstep, rock, entre muitos outros. Claro que há intercessões, ou seja, uma mesma música pode ser enquadrada em mais de um gênero. E além de funcionar no navegador, o Shuffler.fm também é um aplicativo para iPad.

Esses são só alguns exemplos que apontam para a importância – e necessidade – de filtros na rede. De que adianta uma infinidade de conteúdo ser publicado se ele não será organizado para chegar ao consumidor final? É claro que não podemos deixar de considerar um problema dessa curadoria: ela é bastante subjetiva. Afinal, os editores dos sites escolhem quais blogs servirão como fonte de informação. De toda forma, o ponto a perceber é a necessidade de filtros. Quando mais filtros, mais diversidade na curadoria e mais música chegando ao ouvinte.

Acompanhe o Estrombo também nas nossas redes: Twitter, Facebook e YouTube.

Farol Digital

 

Siga o @estrombo

Facebook