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Archive for junho, 2011

No Overmundo: "Móveis Planejados de Acaju"

Por Pedro Biondi

De xodó do público universitário da capital federal, a banda Móveis Coloniais de Acaju vai se firmando como atração de alcance nacional. Os degraus vão ficando para trás: participação em festivais de destaque, apresentações em premiações televisivas de peso, capa de revista, faixas em trilhas sonoras, shows fora do país.

O que tem conquistado os ouvidos é a mistura sonora – autodenominada “feijoada búlgara” – de rock, ska e outras vertentes do pop com ritmos brasileiros e do Leste Europeu, somada a uma quente performance de palco, que, aliás, sempre vai além do palco e catalisa manifestações ensandecidas do público. O que nem todos podem ver na ponta é que um modelo de negócios e arranjos singulares de organização alavancam esse sucesso crescente.

Trata-se de uma combinação de autogestão, profissionalização, estreita ligação com os fãs, uso intensivo de redes sociais, processo coletivo de criação, envolvimento direto dos músicos com as tarefas logísticas e administrativas e adesão a formas não-convencionais de distribuição e remuneração.

Estalo
O conjunto teve início em 1998. Em 2003, foi o grupo local convidado para o palco principal do Brasília Music Festival, estrelado por Charlie Brown Jr., Ultraje a Rigor e a norte-americana Live. “Esse foi o grande estalo para encararmos a banda profissionalmente”, lembra o produtor Fabrício Ofuji. “A banda viu que precisava ter um produtor, uma equipe técnica consolidada.” O circuito de apresentações até então praticamente se restringia a Brasília, com exceção de algumas idas a Goiânia e São Paulo, e incluía bailes de formatura e festas de centros acadêmicos, além de shows de perfil variado. Havia pouca preocupação com as questões técnicas que envolvem uma performance ao vivo e o grupo era a ocupação secundária de seus integrantes.

Dois anos depois, o Móveis (eles se referem a si no masculino e no singular, e os fãs assim os chamam) lançou o seu primeiro álbum, Idem, em festa de iniciativa própria e de parceiros locais. Fundido com as festas Criolina e Move/Frenética, reuniu mais de 3 mil pessoas. Nesse momento, o grupo reforçou o lado empreendedor e começou o investimento em apresentações além do quadrado do Distrito Federal.

C_mpl_te, o trabalho seguinte, recebeu diversas premiações e destaques e foi eleito um dos cinco melhores de 2009 pela revista Rolling Stone. Tornou-se o trabalho mais baixado no projeto Álbum Virtual, da gravadora Trama, desbancando o recordista anterior, Piquenique, de Ed Motta, e nessa liderança permanece até aqui. Até 30 de março de 2011 foram 85.632 downloads do disco, realizados em pouco menos de dois anos. Segundo os números do projeto, o número de streamings (audições online) representa em média 3,2 vezes o de downloads.

“É uma banda icônica dessa geração”, diz João Marcello Bôscoli, presidente da Trama. Ele lista o que considera as razões da ascensão moveleira: “Eles combinam show incendiário, com muito público, qualidade musical e postura inovadora, com microprojetos na internet, diálogo com os fãs. Trabalham de jeito muito intenso no ambiente de rede e agradam tanto o público mais ligado em pop quanto o de perfil mais independente”.

Banda empresa
O perfil de self-made band remonta ao lançamento de Idem. A banda conversou com selos interessados em botá-lo no mercado e esses não se dispunham a prensar de saída a quantidade desejada de 3 mil CDs. A decisão foi ratear o valor da prensagem e vender o disco por conta própria. Em dez dias, cerca de 2 mil foram vendidos, o que levou os músicos a concluir que teriam perdido dinheiro caso começassem com uma quantidade menor.

“Hoje, somos uma banda empresa, que ainda não sabe se é banda/empresa ou banda-empresa”, diz Fabrício Ofuji. Em setembro de 2008 eles se formalizaram como pessoa jurídica. Com base em consultoria administrativa no início de 2009, criaram inclusive diretorias.

A condição de empreendedores se reflete na formação do grupo: Ofuji é integrante (e sócio), ao lado dos músicos, quando o costumeiro é o produtor ser colaborador ou contratado.

Os dez também “carregam piano”, quase literalmente. Em muitas de suas viagens e exibições, fazem as vezes de roadies, carregando os próprios instrumentos e montando o palco. “Priorizamos a contratação de técnicos”, explica Ofuji. “Temos um padrão muito ágil de troca de palco. Recentemente, por conta de um acidente na estrada, precisamos botar tudo em ordem e passar o som em 40 minutos”.

Ao lado disso, a formação de cada um é aproveitada nas tarefas extrapalco, como mixagem, agendamento, assessoria de imprensa, identidade visual e até finanças. Sem falar nas vendas diretas (principalmente CDs e camisetas), parte importante dos ganhos.

Daí a comparação futebolística ao “carrossel holandês”, a seleção de Cruyff, em que os jogadores atuavam em diversas posições, de forma taticamente inovadora e solidária.

“Não dá para o artista ser simplesmente ‘o Artista’. Michael Jackson, o maior artista pop contemporâneo que vimos, é o grande exemplo disso. Participava de todas as etapas de produção – coreografia, clipe, produção musical”.
Esse time não tem hoje um capitão, assume-se com caráter predominantemente coletivo. As decisões são tomadas de forma colegiada (há, inclusive, uma instância assim constituída, que reúne os dez integrantes, para as decisões em que o desejado consenso não vem).

Os shows respondem pela maior fatia da receita (e também dos gastos). Como empresa, a banda fixa uma remuneração mensal para cada um, igualitária, complementada pelo cachê, que varia em função do tamanho e do perfil das apresentações. E reinveste o lucro. As operações se norteiam por metas anuais e de médio prazo.

A música é hoje a fonte majoritária de renda, e apenas um dos integrantes tem uma rotina claramente dividida com outra atividade – é servidor concursado em autarquia federal de pesquisa. Mas eles não tencionam abandonar as atividades paralelas.
Hoje todas as composições do conjunto são creditadas a todos os integrantes.“Como mensurar as contribuições de cada um?”, questiona Ofuji. Ele busca exemplos na MPB: Chico, Vinicius e Toquinho. “Às vezes, durante a ditadura, um dava sugestão de um verso, que era censurado, e era considerado criador também”. E cita o Roupa Nova como exemplo de uma carreira bem-sucedida com processo coletivo de criação.

Sem DRM
No projeto Álbum Virtual, uma marca patrocina a obra por um ano com R$ 15 mil a R$ 30 mil, em média, segundo Bôscoli, da Trama. Dois terços, pelo menos, ficam com a banda, e o restante com a Trama, que nesse caso ofereceu a estrutura para a gravação e arcou com a maior parte dos custos.

“Não tem DRM, que achamos inconstitucional”, explica o empresário, referindo-se aos mecanismos técnicos que restringem a difusão de conteúdos digitais em função dos direitos autorais. Além de liberar o número de cópias por usuário (e total também), o acordo permite que as faixas fiquem disponíveis em outras redes e para troca peer-to-peer. “Mas, como é um lugar seguro, muita gente opta por baixar aqui”, diz. Pelos seus cálculos, os projetos que envolvem patrocínio das marcas – Álbum Virtual, Trama Virtual e TV Trama – respondem hoje por 60% do faturamento da gravadora.

Embora as faixas do Móveis não estejam licenciadas em Creative Commons, a comercialização segue uma lógica similar à de uma de suas variantes: é autorizada gratuitamente para iniciativas que não geram lucro (como trabalhos acadêmicos) e mediante cobrança para as que geram. A avaliação é feita caso a caso por banda e editora.

C_mpl_te pode ser baixado de graça no site, mas é também vendido em três diferentes formatos: pela editora, no formato tradicional de CD (caixinha de plástico com encarte), via lojas (o álbum está no catálogo da Fnac, da Livraria Cultura e da Saraiva); pela banda, em embalagens mais simples e sem número de série, a R$ 5; e por ambos em digifile (caixinha de cartão), a R$ 20.

A teia de relações profissionais varia de acordo com o planejamento do grupo e da estratégia no período. Neste momento, além da Trama, um parceiro importante é o Canal Brasil, correalizador do DVD Ao Vivo no Auditório Ibirapuera.

Apesar do percurso como independente até hoje, a banda não se opõe totalmente à ideia de assinar com uma major. Conforme explica Fabrício Ofuji, a opção pelo melhor modelo se deu em cada momento da carreira e novas orientações poderão ser adotadas.

No debate da propriedade intelectual
O Móveis vê com bons olhos a discussão em torno dos regimes de propriedade intelectual e considera ter o papel de estimular a participação do público. “Embora não sejamos formadores de opinião no tema como o Teatro Mágico, acabamos sendo personagens nesse debate, né?”, comenta o produtor Fabrício Ofuji. Nesse sentido, o pesquisador Paulo Rená, que fez mestrado sobre a liberdade na internet, foi agregado ao Blog dos Móveis. Eles acreditam na necessidade de atualizar a legislação e destacam, entre os objetivos, o de eliminar os intermediários na cadeia e o de buscar maior transparência por parte do Ecad. Quanto a tendências, avaliam que somente o aprofundamento do debate poderá delineá-las.

Ofuji, aliás, estudou em seu mestrado a internet como espaço para artistas independentes, abordando as trajetórias do Móveis, da jovem cantora Mallu Magalhães e do Teatro Mágico, que ele aponta como “banda irmã” e interlocutora constante principalmente quanto a estratégias de merchandising.

Cupins
As redes sociais têm destaque no site oficial da banda, ocupando grande parte da home page. Existe uma relação cotidiana com os fãs, que se manifestam de maneira particularmente calorosa e ativa e se chamam de “cupins”, correspondendo-se de diferentes regiões do país.

Entre outras redes, a banda tem base no Twitter (28,8 mil seguidores), no Facebook (perfil com 5,0 mil amigos e página com 7,6 mil likes), no YouTube (canal próprio, 1,7 mil assinantes, 1,0 milhão de visualizações) e no Orkut (comunidade com 30,6 mil membros) e usa toda a sorte de recursos de compartilhamento de conteúdos. O apoio via Twitter garantiu presença em eventos importantes em que o público podia votar nas atrações e o YouTube foi fundamental na preparação para a chegada do segundo disco. No caso de C_mpl_te, videoclipes de todas as faixas foram previamente postados para minimizar o atraso, familiarizando o público com elas (a data de lançamento estava marcada e o disco não ficou pronto a tempo).

O Móveis optou por manter seu site como vértice dessas redes e ferramentas. Também ali uma loja virtual foi inaugurada em abril.

Outras iniciativas ajudam a manter o trabalho em evidência, fidelizar o público e estreitar o contato com outros artistas. Depois de um EP pioneiro no compartilhamento, a liberação de faixas para streaming e download no primeiro disco começou restrita a algumas faixas e depois foi generalizada. No projeto Adoro Couve (trocadilho com cover), planejado como forma de gerar novidades musicais e exercitar os processos de composição e arranjo, era gravada uma música de outros autores todo mês. O projeto possibilitou também o envolvimento com a linguagem audiovisual, em videoclipes dirigidos e editados pelo próprio conjunto e veiculados no canal da banda no YouTube. O produtor musical do segundo disco, Carlos Eduardo Miranda, foi opinião importante nessa frente.

O festival Móveis Convida, em que o conjunto recebe bandas e músicos de outros pontos do país, cria e fortalece laços, consolidando o lado de eventos da empresa e abrindo portas para o conjunto musical em outras regiões. As 11 edições receberam cerca de 500 artistas e um público total estimado em 36 mil pessoas.

Em paralelo, o Móveis investe nos canais tradicionais de difusão e divulgação. “A avaliação é que estar na mídia tradicional é tão importante quanto participar do [movimento] Música Para Baixar ou visitar uma rádio comunitária”, diz o produtor Ofuji. Entre os resultados, apresentação no Video Music Brasil da MTV em 2009, matéria de capa na Revista da Gol e inserção de faixa na trilha de Araguaia, novela da Rede Globo.

Há, ainda, atividades voltadas à formação de profissionais no setor, uma frente que vai ganhando corpo com a Comissão de Bandas e Artistas Circulantes (CBAC), na qual os moveleiros têm atuação central. Seu objetivo é consolidar a cena cultural do Distrito Federal e trocar experiências, estimulando a autonomia dos participantes como agentes culturais. A comissão promove reuniões, debates e oficinas, bem como intercâmbio com músicos de outras regiões.

Para além do nicho
Os planos para o futuro próximo incluem o projeto Rotas Musicais, que envolve 15 estados e foi aprovado pelo Programa Petrobras Musical, e a atuação também como editora musical.

Esses móveis que são carpinteiros que são carregadores que são vendedores avaliam estar ainda aquém de seu potencial. “A gente entende que o nosso não é um trabalho de nicho, pode ser de massa”, afirma Fabrício Ofuji. O DVD com o Canal Brasil, por exemplo, é enxergado como caminho para chegar a um público mais velho que o atual.

João Marcello Bôscoli faz coro: “A vocação natural deles é ir para um patamar de Skank e Paralamas, o patamar máximo de uma banda pop. Sem nenhum esforço político muito grande, conseguiram ter música em novela das 6 e frequentar programas de TV como o de Serginho Groisman e o Som Brasil”.

(Fonte: Overmundo – 27/05/2011)

Acompanhe o Estrombo também nas nossas redes: Twitter, Facebook, YouTube e Flickr.

No Overmundo: “Móveis Planejados de Acaju”

Por Pedro Biondi

De xodó do público universitário da capital federal, a banda Móveis Coloniais de Acaju vai se firmando como atração de alcance nacional. Os degraus vão ficando para trás: participação em festivais de destaque, apresentações em premiações televisivas de peso, capa de revista, faixas em trilhas sonoras, shows fora do país.

O que tem conquistado os ouvidos é a mistura sonora – autodenominada “feijoada búlgara” – de rock, ska e outras vertentes do pop com ritmos brasileiros e do Leste Europeu, somada a uma quente performance de palco, que, aliás, sempre vai além do palco e catalisa manifestações ensandecidas do público. O que nem todos podem ver na ponta é que um modelo de negócios e arranjos singulares de organização alavancam esse sucesso crescente.

Trata-se de uma combinação de autogestão, profissionalização, estreita ligação com os fãs, uso intensivo de redes sociais, processo coletivo de criação, envolvimento direto dos músicos com as tarefas logísticas e administrativas e adesão a formas não-convencionais de distribuição e remuneração.

Estalo
O conjunto teve início em 1998. Em 2003, foi o grupo local convidado para o palco principal do Brasília Music Festival, estrelado por Charlie Brown Jr., Ultraje a Rigor e a norte-americana Live. “Esse foi o grande estalo para encararmos a banda profissionalmente”, lembra o produtor Fabrício Ofuji. “A banda viu que precisava ter um produtor, uma equipe técnica consolidada.” O circuito de apresentações até então praticamente se restringia a Brasília, com exceção de algumas idas a Goiânia e São Paulo, e incluía bailes de formatura e festas de centros acadêmicos, além de shows de perfil variado. Havia pouca preocupação com as questões técnicas que envolvem uma performance ao vivo e o grupo era a ocupação secundária de seus integrantes.

Dois anos depois, o Móveis (eles se referem a si no masculino e no singular, e os fãs assim os chamam) lançou o seu primeiro álbum, Idem, em festa de iniciativa própria e de parceiros locais. Fundido com as festas Criolina e Move/Frenética, reuniu mais de 3 mil pessoas. Nesse momento, o grupo reforçou o lado empreendedor e começou o investimento em apresentações além do quadrado do Distrito Federal.

C_mpl_te, o trabalho seguinte, recebeu diversas premiações e destaques e foi eleito um dos cinco melhores de 2009 pela revista Rolling Stone. Tornou-se o trabalho mais baixado no projeto Álbum Virtual, da gravadora Trama, desbancando o recordista anterior, Piquenique, de Ed Motta, e nessa liderança permanece até aqui. Até 30 de março de 2011 foram 85.632 downloads do disco, realizados em pouco menos de dois anos. Segundo os números do projeto, o número de streamings (audições online) representa em média 3,2 vezes o de downloads.

“É uma banda icônica dessa geração”, diz João Marcello Bôscoli, presidente da Trama. Ele lista o que considera as razões da ascensão moveleira: “Eles combinam show incendiário, com muito público, qualidade musical e postura inovadora, com microprojetos na internet, diálogo com os fãs. Trabalham de jeito muito intenso no ambiente de rede e agradam tanto o público mais ligado em pop quanto o de perfil mais independente”.

Banda empresa
O perfil de self-made band remonta ao lançamento de Idem. A banda conversou com selos interessados em botá-lo no mercado e esses não se dispunham a prensar de saída a quantidade desejada de 3 mil CDs. A decisão foi ratear o valor da prensagem e vender o disco por conta própria. Em dez dias, cerca de 2 mil foram vendidos, o que levou os músicos a concluir que teriam perdido dinheiro caso começassem com uma quantidade menor.

“Hoje, somos uma banda empresa, que ainda não sabe se é banda/empresa ou banda-empresa”, diz Fabrício Ofuji. Em setembro de 2008 eles se formalizaram como pessoa jurídica. Com base em consultoria administrativa no início de 2009, criaram inclusive diretorias.

A condição de empreendedores se reflete na formação do grupo: Ofuji é integrante (e sócio), ao lado dos músicos, quando o costumeiro é o produtor ser colaborador ou contratado.

Os dez também “carregam piano”, quase literalmente. Em muitas de suas viagens e exibições, fazem as vezes de roadies, carregando os próprios instrumentos e montando o palco. “Priorizamos a contratação de técnicos”, explica Ofuji. “Temos um padrão muito ágil de troca de palco. Recentemente, por conta de um acidente na estrada, precisamos botar tudo em ordem e passar o som em 40 minutos”.

Ao lado disso, a formação de cada um é aproveitada nas tarefas extrapalco, como mixagem, agendamento, assessoria de imprensa, identidade visual e até finanças. Sem falar nas vendas diretas (principalmente CDs e camisetas), parte importante dos ganhos.

Daí a comparação futebolística ao “carrossel holandês”, a seleção de Cruyff, em que os jogadores atuavam em diversas posições, de forma taticamente inovadora e solidária.

“Não dá para o artista ser simplesmente ‘o Artista’. Michael Jackson, o maior artista pop contemporâneo que vimos, é o grande exemplo disso. Participava de todas as etapas de produção – coreografia, clipe, produção musical”.
Esse time não tem hoje um capitão, assume-se com caráter predominantemente coletivo. As decisões são tomadas de forma colegiada (há, inclusive, uma instância assim constituída, que reúne os dez integrantes, para as decisões em que o desejado consenso não vem).

Os shows respondem pela maior fatia da receita (e também dos gastos). Como empresa, a banda fixa uma remuneração mensal para cada um, igualitária, complementada pelo cachê, que varia em função do tamanho e do perfil das apresentações. E reinveste o lucro. As operações se norteiam por metas anuais e de médio prazo.

A música é hoje a fonte majoritária de renda, e apenas um dos integrantes tem uma rotina claramente dividida com outra atividade – é servidor concursado em autarquia federal de pesquisa. Mas eles não tencionam abandonar as atividades paralelas.
Hoje todas as composições do conjunto são creditadas a todos os integrantes.“Como mensurar as contribuições de cada um?”, questiona Ofuji. Ele busca exemplos na MPB: Chico, Vinicius e Toquinho. “Às vezes, durante a ditadura, um dava sugestão de um verso, que era censurado, e era considerado criador também”. E cita o Roupa Nova como exemplo de uma carreira bem-sucedida com processo coletivo de criação.

Sem DRM
No projeto Álbum Virtual, uma marca patrocina a obra por um ano com R$ 15 mil a R$ 30 mil, em média, segundo Bôscoli, da Trama. Dois terços, pelo menos, ficam com a banda, e o restante com a Trama, que nesse caso ofereceu a estrutura para a gravação e arcou com a maior parte dos custos.

“Não tem DRM, que achamos inconstitucional”, explica o empresário, referindo-se aos mecanismos técnicos que restringem a difusão de conteúdos digitais em função dos direitos autorais. Além de liberar o número de cópias por usuário (e total também), o acordo permite que as faixas fiquem disponíveis em outras redes e para troca peer-to-peer. “Mas, como é um lugar seguro, muita gente opta por baixar aqui”, diz. Pelos seus cálculos, os projetos que envolvem patrocínio das marcas – Álbum Virtual, Trama Virtual e TV Trama – respondem hoje por 60% do faturamento da gravadora.

Embora as faixas do Móveis não estejam licenciadas em Creative Commons, a comercialização segue uma lógica similar à de uma de suas variantes: é autorizada gratuitamente para iniciativas que não geram lucro (como trabalhos acadêmicos) e mediante cobrança para as que geram. A avaliação é feita caso a caso por banda e editora.

C_mpl_te pode ser baixado de graça no site, mas é também vendido em três diferentes formatos: pela editora, no formato tradicional de CD (caixinha de plástico com encarte), via lojas (o álbum está no catálogo da Fnac, da Livraria Cultura e da Saraiva); pela banda, em embalagens mais simples e sem número de série, a R$ 5; e por ambos em digifile (caixinha de cartão), a R$ 20.

A teia de relações profissionais varia de acordo com o planejamento do grupo e da estratégia no período. Neste momento, além da Trama, um parceiro importante é o Canal Brasil, correalizador do DVD Ao Vivo no Auditório Ibirapuera.

Apesar do percurso como independente até hoje, a banda não se opõe totalmente à ideia de assinar com uma major. Conforme explica Fabrício Ofuji, a opção pelo melhor modelo se deu em cada momento da carreira e novas orientações poderão ser adotadas.

No debate da propriedade intelectual
O Móveis vê com bons olhos a discussão em torno dos regimes de propriedade intelectual e considera ter o papel de estimular a participação do público. “Embora não sejamos formadores de opinião no tema como o Teatro Mágico, acabamos sendo personagens nesse debate, né?”, comenta o produtor Fabrício Ofuji. Nesse sentido, o pesquisador Paulo Rená, que fez mestrado sobre a liberdade na internet, foi agregado ao Blog dos Móveis. Eles acreditam na necessidade de atualizar a legislação e destacam, entre os objetivos, o de eliminar os intermediários na cadeia e o de buscar maior transparência por parte do Ecad. Quanto a tendências, avaliam que somente o aprofundamento do debate poderá delineá-las.

Ofuji, aliás, estudou em seu mestrado a internet como espaço para artistas independentes, abordando as trajetórias do Móveis, da jovem cantora Mallu Magalhães e do Teatro Mágico, que ele aponta como “banda irmã” e interlocutora constante principalmente quanto a estratégias de merchandising.

Cupins
As redes sociais têm destaque no site oficial da banda, ocupando grande parte da home page. Existe uma relação cotidiana com os fãs, que se manifestam de maneira particularmente calorosa e ativa e se chamam de “cupins”, correspondendo-se de diferentes regiões do país.

Entre outras redes, a banda tem base no Twitter (28,8 mil seguidores), no Facebook (perfil com 5,0 mil amigos e página com 7,6 mil likes), no YouTube (canal próprio, 1,7 mil assinantes, 1,0 milhão de visualizações) e no Orkut (comunidade com 30,6 mil membros) e usa toda a sorte de recursos de compartilhamento de conteúdos. O apoio via Twitter garantiu presença em eventos importantes em que o público podia votar nas atrações e o YouTube foi fundamental na preparação para a chegada do segundo disco. No caso de C_mpl_te, videoclipes de todas as faixas foram previamente postados para minimizar o atraso, familiarizando o público com elas (a data de lançamento estava marcada e o disco não ficou pronto a tempo).

O Móveis optou por manter seu site como vértice dessas redes e ferramentas. Também ali uma loja virtual foi inaugurada em abril.

Outras iniciativas ajudam a manter o trabalho em evidência, fidelizar o público e estreitar o contato com outros artistas. Depois de um EP pioneiro no compartilhamento, a liberação de faixas para streaming e download no primeiro disco começou restrita a algumas faixas e depois foi generalizada. No projeto Adoro Couve (trocadilho com cover), planejado como forma de gerar novidades musicais e exercitar os processos de composição e arranjo, era gravada uma música de outros autores todo mês. O projeto possibilitou também o envolvimento com a linguagem audiovisual, em videoclipes dirigidos e editados pelo próprio conjunto e veiculados no canal da banda no YouTube. O produtor musical do segundo disco, Carlos Eduardo Miranda, foi opinião importante nessa frente.

O festival Móveis Convida, em que o conjunto recebe bandas e músicos de outros pontos do país, cria e fortalece laços, consolidando o lado de eventos da empresa e abrindo portas para o conjunto musical em outras regiões. As 11 edições receberam cerca de 500 artistas e um público total estimado em 36 mil pessoas.

Em paralelo, o Móveis investe nos canais tradicionais de difusão e divulgação. “A avaliação é que estar na mídia tradicional é tão importante quanto participar do [movimento] Música Para Baixar ou visitar uma rádio comunitária”, diz o produtor Ofuji. Entre os resultados, apresentação no Video Music Brasil da MTV em 2009, matéria de capa na Revista da Gol e inserção de faixa na trilha de Araguaia, novela da Rede Globo.

Há, ainda, atividades voltadas à formação de profissionais no setor, uma frente que vai ganhando corpo com a Comissão de Bandas e Artistas Circulantes (CBAC), na qual os moveleiros têm atuação central. Seu objetivo é consolidar a cena cultural do Distrito Federal e trocar experiências, estimulando a autonomia dos participantes como agentes culturais. A comissão promove reuniões, debates e oficinas, bem como intercâmbio com músicos de outras regiões.

Para além do nicho
Os planos para o futuro próximo incluem o projeto Rotas Musicais, que envolve 15 estados e foi aprovado pelo Programa Petrobras Musical, e a atuação também como editora musical.

Esses móveis que são carpinteiros que são carregadores que são vendedores avaliam estar ainda aquém de seu potencial. “A gente entende que o nosso não é um trabalho de nicho, pode ser de massa”, afirma Fabrício Ofuji. O DVD com o Canal Brasil, por exemplo, é enxergado como caminho para chegar a um público mais velho que o atual.

João Marcello Bôscoli faz coro: “A vocação natural deles é ir para um patamar de Skank e Paralamas, o patamar máximo de uma banda pop. Sem nenhum esforço político muito grande, conseguiram ter música em novela das 6 e frequentar programas de TV como o de Serginho Groisman e o Som Brasil”.

(Fonte: Overmundo – 27/05/2011)

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Música, sociabilidades e novos negócios: redes sociais e crowdfunding

Já não é novidade que o mercado de música foi transformado de forma irreversível nos últimos anos. No entanto, em vez de somente apontar os problemas causados pelo compartilhamento de música e pela pirataria, precisamos focar nas possibilidades de trânsito nessa nova realidade. Aos poucos, percebe-se as dinâmicas sociais como um elemento central na cultura da música, inclusive, inspirando novos negócios. Com certa frequência, temos levantado alguns casos aqui no blog que mostram como a inovação no mercado musical está diretamente atrelada à sociabilidade – seja nas redes sociais, nos filtros de recomendação ou no poder cada vez maior de participação dos consumidores.

Não à toa, boa parte dos novos negócios voltados para a música olham com atenção para os sites de redes sociais, principalmente para o Facebook, que vêm experimentando rápido crescimento no Brasil – em maio, fomos o país que mais cresceu em número de usuários cadastrados na ferramenta. Se, antes, o foco das redes sociais era unir pessoas, hoje essas plataformas também conectam pessoas com marcas, negócios, bandas e empresas. Além disso, elas têm adotado um caráter cada vez mais multimídia, incorporando à sua arquitetura de participação bens culturais como músicas e vídeos. Com milhões de usuários inscritos, compartilhando seus gostos e suas experiências musicais, esses espaços configuram-se como terrenos férteis para buscar consumidores, ouvi-los e fomentar negócios. Além disso, os usuários tornam-se agentes fundamentais para distribuir música e interferir em dinâmicas produtivas, levando seu potencial criativo para esferas as quais ele não possuía pleno acesso.

A recente pesquisa Global Entertainment & Media Outlook (E&M) 2011-2015, realizada pela PricewaterhouseCoopers (PwC), aponta o poder dos consumidores “digitais”. A pesquisa ressalta que eles, ainda que esperem cada vez mais conteúdos gratuitos, estimulam o aumento de experiências de engajamento multiplataforma e, consequentemente, fomentam o desenvolvimento de novos modelos de negócio para geração de renda.

Crowdfunding

Ainda que não seja um modelo de negócios de fato e, sim, uma forma de financiamento de projetos, proponentes de diversas áreas da cultura olham cada vez mais para a “vaquinha” virtual como uma possibilidade real de viabilizar seus projetos, justamente por saber onde estão as pessoas que se interessariam por sua realização. Usando os filtros certos, você chega diretamente ao seu público, conversa com ele e conta com o boca-a-boca e financiamento coletivo para tirar a sua ideia do papel, recompensando os investidores das mais diversas maneiras.

É claro que o crowdfunding não é a única forma de viabilizar projetos musicais, mas aponta para a importância do público na esfera da realização, mostrando que a atuação de artistas, patrocinadores e fãs é muito mais complexa e interdependente na nova economia digital.

Discuta essa questão conosco: como gerar novos negócios voltados para a música que incorporem dinâmicas sociais e participativas?

O objetivo do Estrombo é pensar e ajudar a desenvolver novos modelos de negócio que passem por canais como as redes sociais, celulares e games. Acompanhe-nos também nas nossas redes: Twitter, Facebook, YouTube e Flickr.

Profissionais da música podem ter registro de EI: cartilha para download

Na semana passada, o Sebrae/RJ lançou uma cartilha com informações sobre a categoria jurídica “Empreendedor Individual (EI)”, com foco nos agentes vinculados ao setor cultural – que ainda é carente quanto ao fornecimento de serviços de maneira formal. Dubladores, maquiadores, humoristas, músicos são alguns dos profissionais que já podem se registrar como EI.

Para que o profissional possa fazer o cadastro, ele precisa estar enquadrado em alguns critérios, como faturar até R$ 36 mil por ano e não participar de outra empresa. Além disso, deve-se atentar para a documentação exigida: identidade, CPF e comprovante de residência. A formalização através dessa figura jurídica traz algumas obrigações, como também uma série de vantagens: a emissão de nota fiscal, aposentadoria, auxílio-doença, salário-maternidade e a possibilidade de abrir conta bancária jurídica.

Um dos objetivos do Estrombo é dar apoio à formalização dos agentes da música no Rio de Janeiro. Através da formalização, os profissionais aumentam a possibilidade de gerar negócios com a música, além de contribuir para o desenvolvimento da cadeia produtiva da música do estado.

Para obter mais informações sobre o registro, baixe a cartilha aqui ou acesse o Portal do Empreendedor.

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No Overdubbing: "É preciso saber viver (de música)"

Por Leo Morel

Gravadoras em crise, queda na venda de CDs e download de músicas na internet. Desde o final do século passado, o mercado musical não é mais o mesmo. E o que os músicos estão fazendo para sobreviver no século XXI?

O processo de evolução tecnológica gerou significativas alterações na cadeia produtiva da música, ocasionando o declínio de um modelo de negócio que foi hegemônico durante grande parte do século passado baseado na ascensão da indústria fonográfica. Se, até então, a maioria dos artistas da música popular dependia de tais agentes como investidores para desenvolver suas carreiras, como atuar nos dias de hoje em um cenário em que esse artista é cada vez mais responsável pela gestão e financiamento de seu trabalho? De que forma uma banda cria condições para financiar seu trabalho e tirar seu sustento nos dias de hoje?

Primeiramente, é importante observar que o mercado musical tem diversos nichos e diferentes formas de inserção. O produtor musical e instrutor de cursos gerenciais Leonardo Salazar, em seu livro Música Ltda: o negócio da música para empreendedores (http://www.musicaltda.com.br/), classifica esses estágios, agrupando os músicos da seguinte maneira:

- Músico amador: aquele que exerce uma atividade profissional fora da área musical para se sustentar, sendo a música uma atividade “extra”, podendo tirar ou não remuneração dela.

- Semiprofissional: aquele que ganha remuneração com a música, mas necessita de outra atividade econômica para tirar seus rendimentos a fim de equilibrar seu orçamento.

- Profissional: aquele que vive exclusivamente de música, sendo essa sua principal fonte de renda.

Muitos exercem a profissão da música sem necessariamente viver exclusivamente dela. O compositor Guinga, por exemplo, dividiu durante muito tempo sua carreira musical com a de dentista e Vinícius de Moraes foi diplomata. Também é comum um músico utilizar seus rendimentos adquiridos fora do âmbito musical para investir em sua carreira artística.

Atualmente, são bastante variadas as possibilidades de trabalho na área musical, muitos atuam em diferentes nichos do mercado para tirar seu sustento e são raros aqueles que vivem exclusivamente de uma única atividade profissional. Grande parte dos músicos busca desenvolver diferentes especializações para aumentar suas oportunidades de trabalho. Um instrumentista pode, por exemplo, ter seu repertório autoral próprio, acompanhar outros artistas como contratado, realizar gravações e dar aulas. Para um técnico de som, por exemplo, existe a possibilidade de trabalhar com sonorização em casas de show e também gravar bandas em estúdios. As combinações podem variar de acordo com a aptidão e aspiração de cada um. O produtor Salazar aponta em seu livro algumas destas possibilidades profissionais do setor musical atualmente:

- Banda autoral;
- Banda tributo, ou cover;
- Banda, ou orquestra de baile;
- Sonorização para eventos:
- Montagem de estrutura;
- Empresariamento artístico (management);
- Agenciamento (booking);
- Produção executiva (show, ou disco);
- Produção de turnê (tour manager);
- Técnica (som, luz, palco);
- Direção artística (disco ou show);
- Casa de show, teatro, boate, bar (música ao vivo);
- Produção fonográfica (gravadora);
- Edição musical (editorial);
- Distribuição de discos (distribuidora);
- Comércio de discos, DVD e afins;
- Comércio de instrumentos, equipamentos e acessórios;
- Fabricação e reparo de instrumentos, equipamento e acessórios;
- Composição (autor);
- Instrumentista, ou intérprete (tocando/cantando/gravando para terceiros);
- Cantor independente (voz e violão);
- Arranjador;
- Maestro;
- Trilha sonora (publicidade, jogos, teatro, cinema, moda);
- Dj (rádio, show, festa, boate);
- Sinfônica (emprego público);
- Ensino (licenciatura);
- Estúdio de ensaio;
- Estúdio de gravação;
- Estúdio móvel;
- Mixagem;
- Masterização;
- Replicação de mídia (vinil, CD, DVD);
- Organização de eventos (festivais, concursos, prêmios, shows);
- Marketing cultural (elaboração e captação de projetos musicais);
- Design (capas de disco e material gráfico);
- Web (programação ou design para o setor);
- Assessoria de imprensa (especializada em música);
- Produtora de vídeo (clipes, documentários, DVDs);
- Tecnologia da informação (produtos para o setor).

Assim, são muitas as opções disponíveis no mercado da música para se trabalhar e vale ressaltar que uma opção não exclui a outra, pois um músico pode administrar sua carreira realizando diferentes funções de acordo com sua agenda e aspirações profissionais. Na verdade, nos dias de hoje a realidade impõem o músico a “se virar nos trinta”, ele faz de tudo um pouco, sendo uma verdadeira metamorfose ambulante. Além de tocar, ele se vê obrigado e ter noções de áreas que fogem do universo musical como gestão e marketing, por exemplo. Para tal, existem algumas publicações no Brasil que podem auxiliar a lidar com essas questões e a entender melhor esse novo mundo da música. Em breve pretendo tratar disso por aqui (por ora, outra dica legal também é acompanhar aqui no Overdubbing a coluna do Fernando Moura sobre o dia-a-dia dos trabalhos na música).

(Fonte: Overdubbing – música do analógico ao digital)

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